Por que falar sobre futebol feminino?

Por Amanda Moura

Quando eu tinha 3 anos de idade e calçava as minhas chuteiras, eu nem pensava que um dia eu teria que defender minha modalidade. Pra mim, o fato de ser a única garota jogando no meio dos garotos era por pura falta de gosto das meninas do meu colégio. Eu não imaginava que era porque socialmente éramos induzidas a brincar de Barbie e casinha, enquanto os meninos ficavam correndo nas quadras. Nunca havia me perguntado por que falar do futebol feminino, porque nunca achei que um dia isso seria um problema. Era chuteira, calção, top e bola nos pés – nada mais.

Amanda Moura FF

Reprodução Instagram

Com o tempo e a maturidade, as delícias de jogar com a rapaziada se tornaram tanto menos frequentes, como menos possíveis, porque eu já não podia mais disputar os campeonatos que antes jogava, e os meninos da minha idade já estavam entrando em clubes de base ou profissionais. Comecei sendo jogadora de futsal pelo time da escola, sendo privilegiada por uma excelente estrutura para desenvolver atletas e disputando campeonatos regionais com alto nível de competitividade.

Foi quando cheguei ao Atlético que vi a maior necessidade de se falar do futebol feminino. Vivi a maior grandeza ilusória da minha vida, porque era uma estrela cadente que brilhava muito, mas que logo iria desaparecer. Afinal, como falar de uma modalidade se nem mesmo o clube com 8 milhões de torcedores sabia da nossa existência?

O período em que joguei nos Estados Unidos foi o de maior aprendizado e crescimento pessoal e onde decidi dedicar minha vida ao desenvolvimento pleno do esporte. Eu estava em um país com péssima reputação em Copas do Mundo, mas que merecia muito mais o posto de “pais do futebol” do que o Brasil, pois existe uma diferença gritante entre as oportunidades oferecidas aqui e lá fora. Que país do futebol não agrega valores ao jogo? Que país do futebol mais agrava sua formação de base do que estimula? Por que no país do futebol não tem mulheres jogando nas ruas? Por que o país do futebol não oferece condições de profissionalização para as suas estrelas tão talentosas?

Não somente militar por essa causa, eu escolhi falar do futebol feminino, porque é parte da minha essência, é parte da essência da Marta, da Cristiane, da Andressa Alves e da Emily Lima, é parte de cada garota de 7 anos que busca fazer o que ama e luta tão cedo contra dogmas e estereótipos. Faz parte da luta social de igualdade de gênero, que tanto assombra o brasileiro dos níveis corporativos aos particulares.

Temos medo daquilo que não entendemos, mas só entenderemos de algo a fundo quando falarmos sobre isso. Falar do futebol feminino é muito mais que um apelo ou “mendigagem”, que vai além do futebol em si. Futebol feminino é uma voz que reflete a desigualdade de gêneros e não queremos discriminar o homem para enaltecer a mulher, mas dar às mulheres os instrumentos e oportunidades necessárias para que ela possa mostrar o seu talento. Futebol feminino é o reflexo das guerreiras que jogam por ele e, portanto, tem muita fibra pra ser deixada de lado.

Amanda Moura

Reprodução Instagram

Já passou do tempo de quebrar esse ciclo vicioso que minou nossa imagem por anos, desconstruiu nossa reputação por falta de torcida e por falta de apoio. Passou da hora de enfrentar a modalidade como um business, capaz de se auto-sustentar. Devemos sim falar e muito de futebol feminino, para abrir brechas de discussão e fazer crescer a modalidade, para fomentar projetos, para criar fóruns de informação relevantes que promovam a modalidade, para possibilitar um network de profissionais, para atrair empresas e parceiros para patrocinar, para enaltecer os talentos que já temos e não perdê-los no tempo sem o devido reconhecimento.

Como deixamos de falar de um futebol que nos premiou com a jogadora eleita por 5 vezes a melhor do mundo? O futebol que igualizou homens e mulheres na Noruega? O futebol que fez a Nike trocar o símbolo da seleção Holandesa de um leão para uma leoa? Um futebol que possibilitou as muçulmanas a terem Hijabs esportivos? Como deixar de lado o futebol que enalteceu a Arena Amazônia e realinhou o estado no cenário esportivo brasileiro?

Vamos sim falar de futebol feminino, porque precisamos desenvolver trabalhos em longo prazo, precisamos de parcerias financeiras e de valorização das atletas que há muito foram rejeitadas pela sociedade. Devemos falar do futebol feminino porque é bom e prazeroso, envolve sonhos e esperanças, traz sorrisos, emoção, e que nutre a próxima geração com sede de profissionalismo.

 

Amanda Moura é ex-atleta de futebol feminino e trabalha com Gestão e Empreendedorismo no futebol, sócia da Francis Melo Assessoria. 

2 comentários sobre “Por que falar sobre futebol feminino?

  1. Mauro Lúcio disse:

    Muito bom. Parabéns pela iniciativa. Passava da hora de alguém erguer essa bandeira. Vá em frente Amanda. Mostre que no país do futebol tem que ter espaço para o futebol feminino também.
    Manda ver guerreira.

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