Entrevista com Gabriela Dias

A belorizontina Gabriela Dias jogou como atacante pelo Galo entre 2009 e 2013, quando se encerraram as atividades do time feminino. Atualmente com 22 anos, ela é meio-campista e joga na Liga Universitária nos Estados Unidos, pela Trevecca Nazarene University, em Nashville, Tennessee. Gabriela contou um pouco para o Galo Delas sobre seu período defendendo a camisa alvinegra.

Gabriela Dias

Gisa Victer

Como você começou a jogar futebol?

Comecei a jogar competitivo quando eu tinha 7 anos, numa escolinha de futebol no Bairro Industrial, em Contagem. Acho que era Escolinha do Paulinho, se não me engano. Antes de eu ir para o Galo, foi lá que eu comecei.

Com quantos anos você foi para o Galo?

Fui com 13 para 14 anos para a categoria de base, a “escolinha”, como eles chamavam na época. Joguei na escolinha por um ano e meio. Quando fiz 15 anos, me levaram para o profissional, mas tive uma lesão na pré-temporada e precisei voltar para a base por 6 a 8 meses, porque não conseguia acompanhar o grupo. Então, eles me levaram para o profissional de novo, onde fiquei até o feminino do Galo acabar.

Como foram seus primeiros contatos com o Galo?

Meu pai viu uma reportagem no jornal de que estavam fazendo uma peneira. Ele ligou para o treinador e eu fui. Eu lembro que, quando eu estava jogando nessa escolinha antes, tinham algumas meninas que sempre comentavam do time do Galo e eu falava “um dia eu vou jogar no Galo”, mas nem sabia se tinha mesmo e como que era. Quando meu pai achou no jornal a gente entrou em contato.

Gabriela Dias 4

Gisa Victer

Existia camisa fixa no time feminino? Qual você usava?

Quando eu joguei na base eu era camisa 9. Quando eu estava no profissional eu usava a 18 ou 21, não era muito fixo não, variava.

Quais campeonatos você disputou com a camisa do Galo?

Copa Centenário, Campeonato Mineiro e Copa do Brasil. Quando eu estava lá, a gente ganhou todas as edições do Campeonato Mineiro, sendo tetracampeãs. Também ganhamos a Copa Centenário.  Nós jogamos a Copa do Brasil, mas se eu não me engano, a gente perdeu assim que a gente foi. A gente viajou para Goiás e acho que perdemos para o Foz do Iguaçu.

Qual o jogo mais importante que você fez pelo Galo?

Acho que foi um jogo contra o Santa Cruz (de Belo Horizonte), em que a gente jogou no campo delas, um campo de terra. Se eu não me engano, a gente jogou a semifinal lá e elas vieram e jogaram a final no nosso campo. Mas o que aconteceu foi que eu joguei a semifinal contra o Santa Cruz no campo delas e, na semana que iríamos disputar a final no nosso campo, eu machuquei meu joelho e tive que fazer uma cirurgia. Então, eu não joguei a final. Eu estava treinando numa terça, a final era no domingo e rompi o LCA (Ligamento Cruzado Anterior). Isso foi no final de 2012, fiz a cirurgia em 2013.

Eu não lembro direito se era Campeonato Mineiro ou Copa Centenário, mas o que me marcou foi que a gente ganhou lá. O Santa Cruz era um dos nossos maiores rivais. Muitas meninas tinham saído do Galo e tinha ido para o Santa Cruz. Foi um jogo mais puxado, porque todo mundo tinha jogado com todo mundo no Galo. Muita gente que ficou na escolinha do Galo, mas não conseguiu subir pro profissional, desistiu e foi para outros clubes. Foi um jogo que me marcou bastante. E tinha torcida, mas era para o Santa Cruz. Engraçado que o Galo era o maior clube, mas sempre que a gente jogava as pessoas vinham torcer contra a gente, em vez de apoiar. Era o time a ser batido, porque todos os anos ganhou o Campeonato Mineiro e Centenário também, então todo mundo queria derrotar na época.

Campeãs 2012

Reprodução Facebook

Como era a estrutura de viagem?

A gente tinha um ônibus do Galo que a gente viajava nele. Eu lembro que quando fomos para a Copa do Brasil, a gente voou, mas aí não foi todo mundo que viajou. Para a Copa do Brasil, a convocação era diferente, viajava de avião e só podiam levar 18 atletas. Eu não cheguei a viajar.

No Mineiro vocês viajavam para o interior?

A gente chegou a viajar algumas vezes pro interior, mas a maioria dos times eram de BH. Eu lembro que eu fui para o interior, mas quando eu estava jogando pela base.

Existia representação no Conselho Deliberativo do Atlético para decisões de time feminino?

Não que eu me recorde.

E como era a relação com a diretoria?

Que eu me lembre, a gente tinha um diretor, não me lembro o nome dele – Hélio, eu acho. Ele ficava na Vila Olímpica, que era onde a gente treinava e era o que tínhamos. Não tinha muito contato com o CT do Galo ou com o Kalil, que era o presidente na época. Para falar a verdade, a única vez que recebi uma notícia vinda do Kalil foi quando eles acabaram com o time feminino. Eu nunca o vi na minha vida e eu joguei no Galo por 4 anos!

Vocês tinham algum contato com o time masculino?

Nunca tive contato com eles. Acho que a única vez que eu vi foi quando tive que ir ao médico no CT do Galo e eu vi alguns jogadores, foi a única vez. Como a gente ficava na Vila Olímpica e eles treinavam no CT do Galo, a gente não tinha contato nenhum com eles. Eu lembro que quando eu comecei a jogar no Galo a base do masculino ainda estava na Vila Olímpica, depois eles foram pro CT, mas tinha uma parte que treinava na Vila Olímpica, mas não era profissional, de qualquer forma.

Como era a estrutura oferecida?

Quando eu jogava na base, a estrutura era muito ruim. O uniforme que a gente usava era o que o profissional masculino usava, ou seja, quando eles mudavam de uniforme, a gente recebia o antigo para uso. Então, os uniformes já não estavam bons. O treino na base era as terças e quintas-feiras.  Nas terças, a gente treinava em um campo que chamava Aliança, perto da Vila Olímpica, e era um campo muito, muito ruim, não tinha grama não, só tinha grama dos lados. Na quinta-feira, a gente jogava na Vila Olímpica, que tinha um campo muito bom, a estrutura era melhor.

Quando eu fui pro profissional a história mudou. Os uniformes eram novos. A gente tinha uniforme muito melhor, treinávamos todos os dias da semana na Vila Olímpica e tínhamos uma academia. Não era a melhor academia, mas tinha o que a gente precisava.

Facebook Gabriela Dias

Reprodução Facebook

Vocês tinham preparo, acompanhamento? Tinha profissional disponível para o time feminino?

A gente tinha o treinador, o auxiliar técnico e o fisioterapeuta. O fisioterapeuta era muito bom, por sinal. Hoje ele ainda trabalha com o Galo, com o masculino. Era uma estrutura muito boa. Os médicos eram os mesmos do profissional e a gente tinha plano de saúde.

Como era a rotina de treino?

Nosso treinamento era todos os dias da semana. Como muita gente ainda estava estudando, nós chegávamos lá ao meio dia, comíamos com o time e tinha uma nutricionista que acompanhava nossa alimentação. Treinávamos na parte da tarde e, no final, tinha um lanche com o time de novo. Era isso todos os dias e a gente jogava na quarta e no sábado, se não me engano.

A equipe técnica era toda formada por homens?

Não. Era o Welisson, que eu lembro que era o treinador principal, tinha o assistente que era o Lerci e eu acho que tinha a Brenda, nessa época quando eu joguei. Ela era como se fosse uma assistente técnica também. Então vamos dizer que a gente tinha três homens e uma mulher.

Como era a relação com a torcida do Galo? Tinha torcida que acompanhava o time?

Não. A torcida que tinha era a gente mesmo e família, família e amigos. Não tinha a torcida do Galo como no masculino. Como a gente estava treinando em um clube, a Vila Olímpica, então tinha gente que ficava e assistia nossos jogos, mas não tinha essa coisa de torcida seguir a gente, nada não.

E disputando campeonatos você viu outro time que a torcida era mais presente?

Não. A realidade do futebol feminino no Brasil é muito triste. É um dos motivos pelo qual eu vim para os Estados Unidos para jogar bola. Na verdade, eu acho que a maioria da torcida era família e amigos mesmo, no máximo algum atleticano que passava lá e falava “as meninas estão jogando”. Mas não era aquela coisa da torcida do Galo dando suporte. Era mais um atleticano que passava e “oh! As meninas estão jogando”, ou “olha, nem sabia que o Atlético tinha futebol feminino”.

Gabriela Dias 3

Arquivo Pessoal Atleta

Você enfrentou dificuldades para jogar futebol por ser mulher?

Sim. Quando eu ainda era menor, eu era a única menina jogando com os meninos. Sempre era eu e mais uma e o resto tudo menino. Eu apenas joguei com mulheres no Galo e, agora, aqui nos Estado Unidos. Crescendo em escolinha de bairro, eu sempre joguei com homens. A gente sofre muito preconceito por ser mulher e jogar futebol no Brasil. Infelizmente ainda não é visto como a gente deseja. Já melhorou bastante em vista do que era, mas ainda está longe de ser a realidade do masculino.

Você tem alguma perspectiva de melhora com o futebol feminino aqui no Brasil, diante das últimas determinações da Conmebol?

Sim! Toda vez que sai uma reportagem, ou uma lei igual saiu essa da Conmebol, me dá tipo aquela luzinha no fim do túnel, você pensa “é ainda tem uma esperança”. Eu não sei se eu vou ver acontecer. Talvez a geração depois da minha possa ver a mudança no futebol feminino brasileiro. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Eu acho que já tem uma melhora significativa do futebol feminino, mas eu acho que é uma coisa que tem que mudar na cultura do país. Tem que vir suporte, tem que começar no futebol masculino, nas pessoas que o apoiam e vir para o futebol feminino.

A gente fala muito que o Brasil é o país do futebol, mas é o país do futebol masculino e não é o país do futebol em geral. Eu tenho a esperança de melhorar, porque eu jogo futebol e eu sou mulher. Eu joguei no Brasil, sei da realidade e hoje eu estou fora do país e eu vejo outra realidade diferente. Eu penso que, se um dia eu tiver uma filha, ela quiser jogar futebol e eu estiver morando no Brasil, eu quero ter a esperança de que vai ser melhor, porque eu sei das frustrações que eu passei. É uma mistura de você ver a realidade com a sua esperança. Eu espero que um dia seja melhor, mas se eu olhar as circunstancias e a realidade é um pouco difícil de acreditar, mas eu acredito! Hoje mesmo eu estou na faculdade e faço “Negócio do Esporte” e tenho uma especialização em treinamento, porque eu quero ajudar a mudar a realidade disso no Brasil um dia.

 

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