Porque falar sobre futebol feminino?

Por Luiza Aguiar

A pergunta apresentada para nortear esse texto ao mesmo tempo que simples e objetiva, esconde uma série de sutilezas que contribuem para se refletir acerca da presença das mulheres no futebol.

Atualmente, acredito ser improvável que alguém defenda o discurso de que não se deve falar do futebol feminino, ou seja de que há algo sobre mulheres praticando futebol que deveria ser ignorado ou mesmo invisibilizado. Mas me parece igualmente importante saber – e para isso é pertinente falar – que nem sempre foi assim. As mulheres já foram até mesmo proibidas por lei de praticar futebol (além de outras modalidades) entre os anos de 1941 e 1979 sob o argumento de que tais atividades eram “incompatíveis com sua natureza” [1]. Assim, durante um longo período falar de futebol feminino era falar de uma prática ilícita e ilegítima.

Se hoje o direito das mulheres de jogar é reconhecido, a defesa de que se deve falar sobre futebol feminino é rara ou, ao menos, pouco de converte de discurso à prática. É justamente esse o nobre e relevante exercício a que esse site se propõe: diante da imensa carência de visibilidade sobre o universo do futebol feminino (tanto da atualidade como de sua história) pretende-se não apenas reconhecer a possibilidade de tratar da modalidade, mas efetivamente abordá-la.

Mas porque então se fala tão pouco sobre o futebol praticado por mulheres?

Os argumentos que visam legitimar essa subvalorização costumam remeter à suposta má qualidade técnica das partidas. Essa questão insere-se em um ciclo: um espetáculo futebolístico ruim atrai pouco público (nos estádios e nos veículos de comunicação), o pouco público não estimula o interesse de patrocinadores, a carência de patrocinadores faz com que os clubes tenham baixo retorno financeiro, o baixo retorno provoca baixo investimento na estrutura da modalidade (salários de atletas e demais profissionais atuantes, espaços e equipamentos de treinamento, organização das competições, etc), a precariedade da estrutura dificulta o desenvolvimento do desempenho de atletas e equipes, o que leva a partidas nem sempre qualificadas. Ignora-se, contudo, a solução óbvia para o rompimento desse ciclo: os investimentos em diversos níveis. E certamente o investimento em visibilidade faz parte disso, sendo assim fundamental falar de futebol feminino.

O argumento da má qualidade também merece certo questionamento, tanto porque há sim partidas de qualidade no futebol de mulheres, quanto porque o futebol masculino com grande recorrência também apresenta jogos de baixa qualidade, ainda sim diversas vezes acompanhados por muitos aficionados. Acredito que isso ocorre sobretudo porque o motor que move o interesse pelo futebol profissional é a paixão clubística, e o afastamento das mulheres ao longo da trajetória de consolidação do futebol como principal esporte nacional fez com que elas se restringissem a participações secundárias – ainda que inegavelmente importantes [2] – na constituição dos grandes clubes brasileiros.

De todo modo, a inexistência de vínculo clubístico no futebol feminino tal qual temos no futebol masculino certamente compromete o interesse nessa prática. Apesar de existirem equipes de mulheres entre os chamados “clubes de camisa”, a manutenção desses plantéis não é contínua [3], o que dificulta a criação de laços mais estreitos entre as/os torcedoras/es e o grupo de atletas que as/os representam. Além disso, nem sempre o rival tradicional desses clubes também mantém uma equipe feminina, e essas rivalidades locais são também elementos importantes para o interesse pela modalidade. Assim, se é bastante plausível imaginar torcedores/as apaixonados acompanhando as equipes femininas de seus clubes do coração [4], as próprias agremiações não têm conduzido esse trabalho de modo a fazer isso acontecer.

Há ainda, por sua vez, clubes com trajetórias vitoriosas no feminino como a Ferroviária, o Centro Olímpico e o São José, por exemplo, cuja representação masculina inexiste ou não é tão tradicional. Dada a recente organização do futebol de mulheres, são clubes jovens. Será possível que eles formem também seus agrupamentos de torcedores/as apaixonados/as? Os recordes de público do Iranduba, de Manaus, levantam esperanças. Para pensar no desenvolvimento da modalidade como um todo é importante considerar a trajetória dessas equipes, valorizando o investimento feito por esses clubes quando poucos se dedicavam a tal ao mesmo tempo que se deve pensar no potencial dos “clubes de camisa”.

Voltando minha atenção ao Galo, condenso os argumentos já expostos: é fundamental manter uma equipe de forma ininterrupta, é preciso oferecer uma estrutura adequada às atletas e à comissão técnica, e é importante aproximar a torcida da equipe. As estratégias para essa aproximação não estão dadas e devem ser debatidas e construídas tanto internamente, no clube, quanto junto a outras agremiações, federações e confederação, pois envolvem desde ações de marketing até a estruturação das competições.

Fundamentalmente, creio que como atleticanos/as torcemos por uma camisa alvinegra contra o vento, porque não torceríamos por onze mulheres alvinegras contra quem quer que seja?

Que busquemos então as histórias daquelas que já vestiram e honraram nosso manto. Que conheçamos os jogos marcantes, os títulos suados, as viradas inesperadas que essas mulheres protagonizaram. E que novos feitos surjam a partir de uma equipe que entre em cada jogo e em cada competição apoiada pela massa!

Por fim, minha argumentação central é que falar de futebol feminino é importante para estimular o próprio desenvolvimento da modalidade. E porque seria importante estimular esse esporte entre mulheres? Porque o futebol é o esporte mais popular no Brasil e no mundo, além de ser um símbolo de nossa identidade nacional. Permitir uma livre participação nesse universo social, não apenas como jogadoras, mas também como treinadoras, dirigentes, árbitras, jornalistas, etc, representa mais do que apenas o acesso a “um esporte qualquer”. Romper com barreiras históricas que impediram as mulheres de ocuparem tais espaços é uma atitude reparadora. E para romper essas barreiras é fundamental falar delas: revelá-las, debatê-las e buscar estratégias coletivas para superá-las.

Nem toda mulher precisa gostar de futebol, mas toda mulher deve ter esse direito.

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Luiza Aguiar é atleticana, mineira e boleira. Doutoranda em Ciências do Movimento Humano (UFRGS), Mestre em Lazer (UFMG), e Graduada e Licenciada em Educação Física (UFMG).

[1] Decreto-Lei n.º 3.199.

[2] A existência de uma torcida do Galo das primeiras décadas do século XX, composta por cerca de cinquenta moças reunidas por Alice Neves, mãe de um dos fundadores do clube, são exemplo disso.

[3] O Santos é um caso notório, mas o mesmo aconteceu com o Galo, que manteve uma equipe ao longo da década de 1980 até o início da década de 1990, e entre os anos de 2006 e 2012, encerrando as atividades da equipe de mulheres apesar do sucesso esportivo que alcançava.

[4] Vale lembrar como os ginásios em que o Galo disputava seus jogos de futebol na década de 1990 estavam sempre lotados de atleticanos. De forma similar, também se observa o interesse de nossos tradicionais rivais pela equipe de vôlei que mantém em parceria com a prefeitura de Betim.

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