Entrevista com Ivi Casagrande – Parte I

Ivi Casagrande nasceu no meio do futebol. Seu pai era jogador profissional, seu padrasto profissional de futsal. Jogou pelo Galo como lateral esquerda e deu diversas assistências a gol. Hoje, com 26, está concluindo seu mestrado em Fisiologia do Exercício e atuando como técnica no time universitário em que jogou, o Bowling Green State University (Ohio), fazendo monitoramento de performance e prevenção de lesão das atletas.

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Arquivo Pessoal

Como você começou sua relação com o futebol?

Desde os meus 5 anos de idade…na verdade antes disso, por causa dos meus pais, principalmente meu pai biológico, que era jogador profissional, José Antônio Casagrande, chamavam ele de casinha quando ele jogava. Ele jogou em vários times, como no Botafogo de Ribeirão Preto. Acho que desde o começo da minha vida mesmo eu tive o futebol bem presente. Meu padrasto, que casou com a minha mãe acho que quando eu tinha 4 anos, antes da gente mudar para Belo Horizonte, também jogava futsal profissional em Belo Horizonte. Então adicionou ele na minha vida, a minha fase de crescimento foi com ele também. Ele chama José Pimenta Marques.

Mas foi com 5 anos de idade, quando eu mudei para Belo Horizonte, por causa do divórcio dos meus pais, que eu comecei a jogar em uma escolinha de futebol, Bola de Meia. Só com meninos, né. Era eu e mais uma menina no meio de um tanto de menino. Fiquei lá até uns 8 anos, até eu chegar no Santo Antônio (Colégio). No Santo Antônio, na primeira série, jogava futebol, futsal, todo recreio, depois da aula. Daí pra frente foi com o Santo Antônio. Fiquei lá até uns 15 anos.

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Como você ficou sabendo do time do Galo?

Acho que foi em 2007, comecinho de 2007, o Chopinho (professor de Educação Física no Colégio Santo Antônio) falou que a Seleção Brasileira sub-17 ia vir para BH fazer uma seletiva. Eles iam fazer 4 dias de seletiva, acho que foram 150, 200 atletas da região. Mas eu nunca tinha jogado campo, sempre joguei futsal, então fiquei meio assim de participar, mas pensei “ah, vou tentar. Vai que dá?!”. No mesmo dia que ele me falou eu fui comprar uma chuteira de campo e no outro dia era a seletiva. Era de quinta a domingo e a cada dia eles iam selecionando mais as meninas. Eu fui passando, na quinta, na sexta e quando fui ver eu fiquei entre as 22 pré-selecionadas! Fui selecionada para a criação da Seleção Mineira de Futebol, que eram essas 22 e dentre elas, no domingo, pré-selecionaram 9 atletas para a Seleção Brasileira Sub-17 e eu fiquei entre elas. Depois eles selecionaram acho que três, e duas eram do Galo, eu acho.

Acho que 70%, 80% das meninas que passaram, tanto para a Seleção Mineira quanto para a Seleção Brasileira, tinham uniforme do Galo. Eu perguntei a elas se tinham time feminino no Atlético. Acabei fazendo muita amizade com a Brenda, que jogou lá também. Ela que me falou que eu devia ir fazer o teste para o Galo. No dia seguinte entrei em contato com o técnico e ele me chamou para fazer um teste com eles em um treino. Na semana seguinte eu fui. Elas treinavam em um campão de terra perto da Vila Olímpica, acho que duas vezes na semana e nos outros dias treinava em um gramado na Vila Olímpica. Eu entrei no treino delas, no time principal mesmo. Tinha time A e time B e eu entrei no time A e no mesmo dia ele me chamou para voltar e aí comecei a treinar no Atlético.

Meu teste no Atlético foi como se eu tivesse treinando com as meninas mesmo e eles me avaliaram assim. Falaram para eu continuar indo e então fiquei lá. Eles faziam peneiras, principalmente com o time b, eles faziam muito, passavam umas meninas do time b para o time a. O time b eram as meninas um pouco mais novas, era como uma base. Muitas meninas no final do ano, que se destacavam no time b tinham uma chance no time a.

Eu estava repetindo o primeiro ano do ensino médio no Santo Antônio, que eu tomei bomba no primeiro ano. Mas estava muito difícil conciliar as duas coisas porque eu tinha que pegar 2, 3 ônibus, metrô, para ir lá para o Planalto. Então eu saía correndo do Santo Antônio, almoçava, para chegar na Vila Olímpica as 14hs e treinar até as 19hs, voltar e chegar em casa as 22hs. Então não conseguia estudar e o Santo Antônio é muito puxado. Eu resolvi terminar o primeiro ano lá e no ano seguinte mudar de escola, para conciliar as duas coisas. No começo de 2008 fui para o Izabela Hendrix. Eu fiquei muito pouco lá, acho que foram dois meses, porque nesse meio tempo eu recebi uma proposta do Colégio Magnum. Fui para lá com uma bolsa de futsal, mas continuei no Atlético em 2008. No fim do ano eu recebi uma proposta de bolsa para ir para a Escola Americana. Foi aí que decidi sair do Galo, no final de 2008, porque eu recebi a proposta para jogar e estudar na Escola Americana. Me formei na Escola Americana em 2010, porque lá o ano começa em agosto, então atrasa mais um pouco.

No Santo Antônio você fazia aula de futsal?

Acho que eu comecei só na quinta série, depois da aula. Na primeira série ainda estava na escolinha Bola de Meia. Da segunda série até a quinta foi só jogando futsal na rua, no recreio, depois da aula…

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Em que posição você jogava no Galo?

Jogava só na lateral esquerda no Galo. As posições que eu gostava muito de jogar era meia-atacante ou lateral esquerda. Eu me sentia muito mais confortável jogando na lateral esquerda do que de armadora, porque eu achava que eu era muito fraca fisicamente para ser meio de campo. Eu sempre fui muito inteligente na bola, mas que o jogo físico estava abaixo, até eu chegar nos Estados Unidos, quando eu fiquei forte fisicamente. O estilo de jogo aqui é muito diferente do que é no Brasil, é muito mais físico do que habilidade, muito mais combate. O que eu tive muita dificuldade nos meus primeiros anos como jogadora aqui. Mas no Galo sempre joguei na lateral esquerda.

Tinha camisa fixa? Você era titular?

Eu não lembro. Tenho quase certeza que eu era a 6. Joguei como titular uns 3 jogos. Eu entrava sempre no segundo tempo, sempre jogava, pelo menos alguns minutos.

Você chegou a marcar gols pelo Galo?

Eu dei várias assistências, mas gol acho que foi só um. Foi de pênalti em um jogo lá na Vila Olímpica.

Quais campeonatos você disputou?

Pelo o que eu lembro foi Copa Centenário, Mineiro e Copa do Brasil. A gente ganhou a Copa Centenário no Mineirão em uma preliminar do time masculino, estava cheio de gente. A gente ganhou a final na frente da torcida. Na Copa do Brasil a gente saiu nas quartas de final, eu acho, no Rio de Janeiro, mas não lembro contra qual time. O Mineiro ganhou também.

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Tem algum jogo que você considera mais marcante?

Acho que o primeiro jogo que joguei pelo Galo, lá naquela favela do Santa Lúcia, na Barragem. Lá tem dois campos de terrão mesmo e foi o primeiro jogo que joguei e que eu estava naquela atmosfera, para mim era tudo novo. Vindo do Santo Antônio, de classe média, tendo aquela experiência de jogar com a camisa do time que eu sempre torci desde criança, e estar ali, eu amei, foi muito legal. Eu lembro que eu estava amando viver outro tipo de realidade, outra perspectiva de vida. Me deu muita valorização do que a gente tem. Viver o que eu vivi com as meninas e com o time e jogando em terra, vendo algumas meninas jogando pelo Galo que dava a ajuda de custo para a mãe. A gente conseguia um mínimo e elas estavam ali porque gostavam, porque viam uma possibilidade de trazer um futuro para a família. Para mim foi uma realidade que foi muito boa eu viver, para valorizar mesmo!

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