Entrevista com Ivi Casagrande – Parte II

Para começar os trabalhos de 2018, voltamos com a segunda parte da entrevista com Ivi Casagrande, técnica do time universitário Bowling Green State University (Ohio).

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Existia algum contrato entre atleta e clube? Recebiam alguma remuneração como bolsa-auxílio?

Então, eu não me lembro nem de ter assinado contrato. A gente não tinha salário, apenas uma ajuda de custo que não era regular. Eu lembro disso, porque eu recebi o meu primeiro dinheiro, que eram setenta reais por mês, só uma vez. Era muito irregular. E eu lembro que eu estava tão feliz por ter recebido e no dia seguinte fui assaltada. Levaram meu primeiro dinheiro, que eu ganhei com o meu suor. Eles davam auxilio transporte de vez em quando. E, às vezes, davam ingresso pro jogo do time masculino do Galo.

Como era formada a equipe técnica e como era a relação com as atletas?

Era formada só por homens, não tinha nenhuma mulher. Tinha o Lecir, que era assistente, o Caetano que era técnico do time B e que ajudava com as goleiras do time A. Tinham dois fisioterapeutas, que eram da UNI BH e ajudavam no Atlético, e o técnico que era o Wellisson Bittencourt.

E em relação a equipamentos e materiais pra trabalhos muscular e de recuperação, vocês tinham uma boa estrutura?

Antes não tinha nada, mas depois gente começou a fazer um trabalho de força em uma academia da Vila Olímpica. Mas eles só começaram a usá-la no final. A gente tinha um tanque de areia onde fazíamos trabalho físico, com cone e tal. Mas de material era só isso. Tinha muita pouca coisa. A camisa de treino era uma para semana inteira e mesmo assim não era individual. A gente entregava pra lavanderia e podia pegar a de outra menina depois.

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Mas vocês tinham uniforme de vocês?

A gente usava sobras do masculino. Eram enormes as camisas, mas pra gente era a melhor coisa, vestíamos com orgulho. Normalmente, as camisas eram da temporada passada, camisa antiga. A gente usava com o patrocínio do masculino e tudo, mesmo esse patrocínio não sendo pra gente.

Tinha estrutura médica como plano de saúde ou assistência da equipe médica do masculino?

Não tinha plano de saúde. Eu não lembro o que eles faziam quando precisavam de médico. Os fisioterapeutas estavam sempre lá, mas médico eu não lembro. Não machuquei nenhuma vez, graças a Deus. Eu tive muita sorte na minha vida esportiva. A única vez que machuquei foi as minhas costas aqui na academia nos EUA.

E a relação com a diretoria?

Acho que não tinha nenhuma! Eram dois times completamente diferentes, parecia que nem era o mesmo clube. A gente não tinha nada do masculino, não conhecemos os atletas do masculino, nem diretoria. A gente tinha uma espécie de presidente nosso, que na verdade era só um responsável pelo feminino. Era tudo muito separado.

Os jogos aconteciam onde?

Quando a gente jogava em casa era na Vila Olímpica. Uma vez jogamos no Mineirão, na Copa Centenário. Jogamos no Independência também, quando era jogo contra o América. Fora isso a gente jogava nos campos dos times que enfrentávamos, que normalmente eram nas comunidades, campos de terra, aqueles de machucar mesmo.

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E a presença da torcida, tanto em jogos na Vila Olímpica, quanto em outros lugares, existia?

Na Vila, era mais o pessoal do clube que comparecia e os nossos pais. Nesses outros jogos o pessoal da comunidade se mobilizava, ia bastante gente. Quando a gente jogou no Independência, tinha um pouquinho de torcida, mas muito pouco. Tinha uma pequena torcida do Atlético que acompanhava o feminino, tipo umas 10 pessoas, 15 pessoas. No mais era mais família mesmo, time B, categorias de base, porque na Vila Olímpica tinham umas categorias de base de meninos bem novos.

No Mineirão que a gente foi encontrar a torcida mesmo. Completamente diferente. Tinha muita gente lá na Copa Centenário, com a torcida cantando pra gente, lotado! Muita gente nem sabia que tinha time feminino no Galo! Não tinha nenhum trabalho de marketing em cima da gente, não tinha nada.

Você saiu do Galo antes de acabarem com o time feminino. Como foi sua carreira depois?

Eu sai do Galo e fui pra Escola Americana, onde fiquei um ano e meio jogando, estudando e sendo imersa na cultura americana. Recebi cinco bolsas de estudo integral de diferentes faculdades para vir para os EUA. Vim para Bowling, Ohio em 2010. Joguei até 2013 e me formei no ano seguinte em Bacharelado em Ciências da Saúde. Fiquei um ano na Califórnia estudando pra tentar entrar em Medicina, que eu tinha interesse na época. Nesse ano na Califórnia, quando eu estava tentando descobrir o meu caminho, eu percebi que sentia falta do esporte. Eu decidi, então, fazer um mestrado em Fisiologia do Exercício e trabalhar com performance esportiva com foco em fisiologia. Comecei o mestrado em 2016 e acabei agora no fim de 2017. Fiquei como parte da equipe técnica no time de futebol que eu joguei aqui em Ohio. Faço a parte de performance esportiva, prevenção de lesão, a volta aos gramados das meninas lesionadas e monitoramento.

Em 2017, montaram um time feminino semiprofissional aqui em Ohio, o primeiro, e me chamaram pra jogar. Passei no teste e joguei na liga semiprofissional durante o verão, por três meses. Foi uma experiência maravilhosa, porque sempre sonhei em jogar em um time semiprofissional aqui. Nesse meio tempo, também fiz um estágio de dois meses na Europa, viajando por vários países como Alemanha, Suíça, Inglaterra e França. Visitei vários times. Fiquei dois dias com o Aston Villa. No FC Basel fiquei com as categorias de base e compartilhei o que eu sabia e aprendi bastante também. Fiquei 15 dias com o time principal do Arsenal, com as categorias de base e o time feminino deles. Aprendi bastante! Até liderei uma sessão de mobilidade com o sub 19 deles, porque eu fiz uma certificação de Mobilidade e Movimento bem conhecida aqui nos Estados Unidos e o pessoal do Arsenal ficou bem interessado. Pra mim, foi muito marcante fazer um treinamento desses, coisa que no Brasil eu nunca teria oportunidade como mulher.

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Falando em oportunidades para mulher no futebol brasileiro, você sofreu algum tipo de preconceito por questão de gênero durante esse tempo?

No Atlético, eu não lembro de ter sofrido preconceito não. Tinha uma comunidade no Orkut na época, e, às vezes, eu divulgava nossos jogos lá e vinham muitos comentários do tipo “gatas, gostosas”, que não é o que a gente quer. Queremos ser vistas como atletas. Aqui nos Estados Unidos também não, porque aqui é o berço do futebol feminino. Onde você vai no país, você vê meninas jogando. No Brasil, o pessoal tem a cabeça muito mais fechada em relação ao futebol feminino.

Quando eu jogava no Colégio Santo Antônio, sempre tinha alguma coisa. Eu entrava e tinha sempre alguém falando “ah, menina jogando, quero só ver!”. Mas quando começava a jogar, eu mostrava que sabia e eles paravam. Mas eu lembro que até no Bola de Meia, as pessoas viam e achavam estranho. Não era uma coisa normal uma menina jogando futebol. Sempre teve também aqueles comentários do tipo “foi driblado por uma menina” ou “tomou gol de uma menina”, mas eu não me importava, na verdade.

Mas a realidade brasileira de mulher no esporte é ruim. É o que eu queria que mudasse. Vai além das atletas. Em comissão técnica, também não se vê muitas mulheres. Quando fiz estágio na Europa, vi muita mulher em comissão técnica, principalmente em categoria de base. Tem muita mulher trabalhando e muito respeito por elas. O que no Brasil eu não sei quando vai mudar, nem se vai mudar. Partindo da minha experiência aqui nos EUA, no futebol universitário, onde a estrutura é melhor que qualquer estrutura de futebol feminino profissional no Brasil, acho que o Brasil devia seguir um pouco essa mentalidade daqui e dar pelo menos dois, três anos pra técnico montar um time e ter continuidade de trabalho. Isso você não vê no Brasil. É impossível não ter uma continuidade de trabalho, porque os resultados não saem da noite para o dia. Tem muita coisa que importa no esporte além do resultado. Se desse esse tempo de continuidade de trabalho pra preparador físico, time de performance física, aí sim iria pra frente. Igual o caso da Emily na seleção. Ela não teve nem tempo de construir uma cultura dentro do time pra ter um entrosamento, uma química. São coisas que demoram e que precisam de paciência. Acho que começa por aí o problema: não ter continuidade pra comissão técnica fazer o trabalho que tem que ser feito.

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