Entrevista com Aline Milene

Belorizontina e atleticana, Aline Milene joga no meio-campo e se destacou desde muito nova no time de futebol feminino do Atlético, onde jogou de 2007 a 2012. Agora, aos 23 anos, ela joga a Liga Universitária nos Estados Unidos, defende o Baylor University e realizará o sonho de defender a amarelinha.

A Seleção Brasileira de Futebol Feminino iniciou esse mês a preparação para a Copa América do Chile, que ocorrerá em Abril. O técnico Vadão convocou 19 jogadoras para essa etapa de treinamentos e a meio-campista Aline Milene terá sua primeira oportunidade na Seleção Principal.

Aline Milene 2012 01

 

Como foi o seu primeiro contato com o Atlético?

Eu comecei a jogar bola com uns sete anos, quando era criança, no meio da rua e com os meninos. Depois, quando eu cresci um pouco, meu pai descobriu que o Atlético tinha uma escolinha para meninas e decidiu me levar. Eu fiz os testes e entrei para a escolinha, mas ela era paga, como uma escolinha normal. Eu estava no time B do Galo. Aí lá dentro, o treinador do time me viu jogar e me subiu para o time A, em 2007.

Em 2008, foi o ano que nós perdemos o Campeonato Mineiro, mas também foi quando disputei meus primeiros campeonatos oficiais, como Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e vários outros. Quando voltamos, em 2009, a gente foi campeã de quase tudo, ganhamos a Taça BH, a Copa Centenário e fomos campeãs em 2009 até 2012 do Mineiro. Disputamos também a Copa do Brasil, mas perdemos nas oitavas para o time do Santos.

Quais campeonatos nacionais você disputou pelo Galo?

O único campeonato nacional que disputávamos mesmo era a Copa do Brasil. Era suposto ter outro campeonato pela LINAF (Liga Nacional de Futebol), mas adiaram tantas vezes que acho que acabou não tendo.

Campeãs 2011 01

Em qual posição você jogava? Tinha numeração fixa?

Eu já joguei com a camisa 11, mas a 7 sempre foi a minha favorita. No final da minha carreira no Atlético, era ela que eu usava. Comecei jogando pelas pontas e também atuava como uma segunda atacante, mas depois fui para o meio-campo e agora estou nessa posição mesmo.

Como era a estrutura oferecida a equipe feminina quando você jogou no Galo?

Nós treinávamos na Vila Olímpica. No início, o treino só acontecia duas vezes na semana, nas terças e quintas-feiras, durante um período só. Quando acabava, tinha o lanche. Tinha uma ajuda de custo, mas bem pouco, e também vale-transporte. O uniforme vinha do profissional, ou seja, do time masculino. Como se diz, a gente pegava muito “as sobras”. Quando tinha troca de patrocinadores, mandavam os uniformes deles pra gente. A cada ano iam melhorando alguma coisa e começamos a ter treinamento todos os dias, de segunda a sexta-feira, e tinha almoço e lanche. Montaram uma academia pra gente e tinha fisioterapia. Em 2011, nós começamos a ter um salário próximo ao salário mínimo da época, mas não tinha carteira assinada e nem contrato.

Treino 2012 07

Como era o contato com o time masculino e a diretoria do clube?

Basicamente, no Galo, a gente nunca teve muito contato com o time masculino, o presidente e os dirigentes do clube. Nós treinávamos na Vila Olímpica e o masculino já tinha o centro de treinamento em Vespasiano. Nunca tivemos apoio mesmo do pessoal da sede. O que vinha era dos nossos diretores, como o Heraldo, o Edson e dos treinadores, que lutavam pelo pouco que a gente tinha. Então, o futebol feminino sofreu muito nos primeiros anos até 2011, quando as coisas começaram a melhorar. Sou muito agradecida ao Atlético, por tudo que eu tive e por ter sido onde eu comecei, mas faltou muito apoio das pessoas de poder dentro do clube, como falta até hoje de uma forma geral no Brasil.

Aline Milene, Edinho, Keka e Samhia 2011

Como era a relação da torcida com o time feminino?

A nossa maior torcida era a nossa família. Eram as nossas famílias que sempre nos acompanhavam nos jogos, além de amigos e alguns times adversários que também iam assistir. Quando nós jogávamos na Vila Olímpica, sempre tinha algum público, porque lá é um clube de lazer. Então, às vezes, as pessoas iam para o clube, passavam pelo campo e ficavam vendo. Em alguns jogos importantes, a torcida organizada comparecia.

Eu lembro que nós jogávamos muito em Ipatinga, por causa dos jogos e das finais do Campeonato Mineiro contra o Iguaçu. E lá a torcida organizada sempre lotava o estádio e fazia a festa para o nosso time, então era ótimo. Nós chegamos a jogar no Independência e no Mineirão também. Nesses jogos, a torcida estava presente.

Jogo 2011 04

Você conseguia conciliar a vida de atleta com os estudos?

Quando eu estava no Galo, grande parte das atletas estudava. Eram sempre meninas mais novas, que estavam naquela época da escola. Quando a gente foi ficando um pouco mais velha, algumas começaram a fazer faculdade e outras não, mas também entraram meninas mais novas que estavam no período escolar. Depois que começaram a profissionalizar, em 2011, eles deram algumas bolsas de estudos para as atletas começarem a faculdade. Eu ainda estava terminando o ensino médio, na época. Aí, quando acabei, joguei mais um ano no Atlético e vim para os Estados Unidos, pouco antes de encerrarem as atividades do time feminino.

Como era a sua relação com o clube?

Eu falo como atleticana, então tem toda essa alegria detrás da cena, que é estar jogando pelo time que torce. Quando tinha torcida, era sempre incrível sentir a atmosfera, como por exemplo, em um jogo que fizemos pela Copa do Brasil. Foi no começo de 2009, em partida preliminar do jogo Galo contra o Botafogo, no Mineirão. Foram entregues as medalhas do Campeonato Mineiro e, mesmo a gente tendo sido vice-campeãs, a torcida atleticana estava lá e estava lotado, então foi incrível. Viagem com o time também era super bacana.

Nesse jogo do Mineirão, eu estava na reserva, mas acabei entrando. No independência, nas duas vezes que jogamos, eu entrei de titular. Meu pai é atleticano doente, então a gente sempre se lembra dessa época. Nós sempre íamos aos jogos no Mineirão, mas pisar no gramado como jogadora foi um sentimento incrível.

Algo que vai estar sempre na minha memória é a final contra um time de São Joaquim de Bicas, em que perdemos o primeiro jogo por 2 a 0 e a nossa goleira foi expulsa. Então, na Vila, teríamos que fazer um bom placar. Para esse jogo de volta era aquele sentimento “precisamos ganhar, precisamos ganhar, precisamos ganhar” e conseguimos: ganhamos de 4 a 0. Eu me lembro de ter uma grande amiga no rival – que até acabou indo para o Galo depois. Ela me provocou, eu acabei fazendo um gol e aí provoquei de volta, né? Fica essa lembrança na memória, mas foi um grande jogo, muito emotivo para o nosso time.

Viagem 2010 01

Você saiu do Galo antes de acabarem com o time feminino. Como foi sua carreira depois?

Eu vim para os Estados Unidos através de um programa de intercâmbio. Consegui a bolsa de estudos para jogar pelo time da universidade. Por indicação de uma amiga que também jogou no Atlético, a Samhia, eu consegui a bolsa e estudo Administração de Empresa e Estudos Gerais, com duração de 4 anos, podendo se estender para 5 anos. Ela me indicou, eu entrei em contato com o treinador e deu certo, consegui entrar na Northwest College. Depois, eu me transferi para o Monroe College, onde fiquei por um ano. E agora estou na Baylor University e me formo em maio de 2018.

Quando você vem jogar nos Estados Unidos, percebe que o nível do futebol feminino é muito diferente. No Brasil, a gente tem muita técnica e, quando você chega aqui, tem que aprender a jogar um jogo mais duro. Não me ajudaria voltar para o Brasil agora, porque eu ia perder bastante na parte de preparação física e essa parte mais bruta do futebol aqui. Mesmo jogando a Liga Universitária, a nossa estrutura é 100% melhor que qualquer clube brasileiro ofereceria agora. As instalações, os campos, os equipamentos estão em perfeita qualidade.

Treino 2011 01

Como você vê o futebol feminino hoje no Brasil?

Eu espero que as novas determinações da Conmebol sejam adotadas seriamente e que cada time grande tenha, de fato, uma equipe de futebol feminino, porque é só assim que eu acredito que mais portas vão se abrir pra gente. Acompanho muito o trabalho da Amanda, vejo os seminários que estão fazendo para cada dia mais desenvolver a modalidade no Brasil. O que precisa mesmo é que os times comecem a estruturar uma base para formar atletas, porque é isso que vai manter o futebol daqui uns anos. É assim que vamos manter a seleção daqui 10 anos, por exemplo. Aqui nos Estados Unidos, eles preparam as atletas. Nós temos a Liga Profissional, mas a Liga Universitária aqui é muito grande, com mais de 300 equipes femininas. Então, estão preparando as atletas para o futuro e não apenas no futebol. Eu sei que a gente não tem condições de ter, no Brasil, uma Liga Universitária como aqui, mas então impor que os times de série A e B tenham futebol feminino é um dos maiores passos para avançarmos.

Hoje eu vejo que é muito difícil olhar para o Brasil. Um país tão grande e que tem uma qualificação muito grande, pois são muitas atletas de qualidade, mas que é necessário lutar todo dia para que o futebol feminino seja respeitado. É triste ver isso, porque nós estamos no século XXI e quase tudo está da mesma forma.

Aline Milene e Fernanda Brito

2 comentários sobre “Entrevista com Aline Milene

  1. amandamourashera disse:

    Eu acompanho a Alininha desde 2008, éramos inseparáveis no campo, até chuteira e tiara iguais usávamos! De fato uma merecedora de estar na seleção agora (sei o tanto que esperou por isso), e que vai acrescentar muito para o futebol feminino trazendo uma visão de estrutura e qualificação norte-americana para os clubes brasileiros. Parabéns pelo post muito relevante!

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