Carol Leandro: por trás do racismo velado no futebol

Por Carolina Leandro

Eu sempre tive o futebol muito presente na minha vida, e com isso cresceu uma paixão enorme. Assisto e converso sobre times, jogadores, posições, esquemas táticos, desde muito pequena. Eu jogava futebol na escola com os primos, e quando meu pai trabalhava numa quadra eu ficava lá entre um horário e outro fazendo embaixadinha.

Na adolescência joguei em campo, futsal, society, em campeonatos e em peladas. Parei de jogar e comecei a treinar times de futsal, no geral ficando muito tempo com cada time. Ah! Eu também sou uma torcedora bem fervorosa do Galo e com isso sempre estive presente nas arquibancadas, o que me me proporcionou momentos incrivelmente felizes e outros nem tanto.

No futebol, foi criado uma visão de que ali é um mundo à parte e que lá tudo pode. Com isso, os estádios e as conversas sobre a temática sempre são carregadas de palavras, expressões e gestos preconceituosos. Vou falar especificamente de uma, o Racismo.

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Na arquibancada, já escutei chamarem o árbitro Paulo Cesár de Oliveira de macaco por muitas vezes. Naquela época, eu ainda achava que essa era a resposta para a incompetência dele. Mas não era. Era apenas a exposição de um desvio moral cruel daqueles que proferiam aquelas palavras. Obviamente, já escutei outras expressões e xingamentos racistas em vários momentos. Escolhi esse para enfatizar porque foi uma das oportunidades que me fizeram refletir o quão nocivo era aquele comportamento.

Outra frase recorrente é: tinha que ser preto. E realmente tinha que ser preto, para ser o maior jogador da nossa história, Reinaldo. Tinha que ser preto, para trazer uma libertadores com sua genialidade, Ronaldinho Gaúcho. Tinha que ser preto, para fazer o gol mais importante da nossa história, Leo Silva.

Atuando como treinadora de um time amador de futsal feminino, normalmente eu sou a única técnica negra. Às vezes encontro alguns times com treinadoras, às vezes com treinadores negros, mas treinadora negra eu não lembro de ter encontrado em tantos torneios por aí. Isso é muito sintomático.

Vem de lá de trás
O Brasil tem problemas com a sua história e, ao invés de discutir os erros do passado e conscientizar para que não se repitam, geralmente tentamos não falar nesses assuntos para tentar fazer com que eles sejam esquecidos. O pior disso é que causa exatamente o contrário, os assuntos são tratados com descaso e, assim, passamos a ideia de que não é importante falar disso.

No nosso país a escravidão durou cerca de três séculos. Seu fim foi conduzido de modo superficial, ampliando ainda mais a discriminação e o racismo. O Brasil foi o último a abolir a escravidão no continente americano. A Lei Áurea não foi um ato de benevolência da monarquia, o movimento abolicionista ganhou força na sociedade na década de 1870 e diversas associações em defesa da causa começaram a surgir pelo país.

Os escravizados lutaram realizando fugas em massa, organizando revoltas contra seus senhores e formando os quilombos, locais isolados no meio do mato que serviam de refúgio. A força da pressão popular criou o clima que obrigou o Império a abolir o trabalho escravo.

A abolição da escravidão coincide com uma onda imigratória de, principalmente, italianos e japoneses para São Paulo e portugueses para o Rio – uma tentativa de embranquecimento da população brasileira. Logo, os latifundiários aproveitaram a mão de obra estrangeira especializada na lavoura. Ao invés de empregarem os ex-escravos, agora libertos, empregaram os europeus. Este fenômeno foi determinante para a marginalização do negro na sociedade.

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De maneira ainda mais simplória e por muito tempo tênue, o racismo estrutural tende a ser ainda mais perigoso por ser de difícil percepção. É a formalização de um conjunto de hábitos de uma sociedade que repetidamente coloca um grupo étnico em uma condição privilegiada enquanto prejudica outros grupos, causando disparidades que se desenvolvem por um longo período de tempo.

São situações e falas embutidas em nossos costumes e que promovem a segregação ou o preconceito racial. Falas e hábitos pejorativos incorporados ao nosso dia-a-dia reforçam essa forma de racismo, visto que promovem a exclusão e o preconceito. Quando uma pessoa negra sofre racismo, não está sendo a única atingida. Aquilo fere a todos nós.

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