Agosto Lilás: A violência contra a mulher e o futebol

O Agosto Lilás é uma campanha durante o mês de aniversário da Lei Maria da Penha, para informar e sensibilizar a população sobre a importância de se combater a violência contra a mulher, propagar os mecanismos de denúncia e divulgar os serviços especializados de suporte e atendimento a essas mulheres. Por isso, nós do Galo Delas, entendendo a importância do enfrentamento à violência contra a mulher, inclusive no contexto do futebol feminino e decidimos dedicar as nossas segundas-feiras de agosto, para compartilhar mais informações sobre a temática.

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Foto: Fábio Xavier

Mesmo que tenhamos alguns dispositivos nesse combate, a violência contra mulheres (vale lembrar que nessa análise incluímos mulheres cis e trans, independente de sua sexualidade) segue tomando proporções alarmantes no país. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2018,  uma mulher registra agressão sobre a Lei Maria da Penha a cada dois minutos! Além disso, a cada nove minutos uma mulher é vítima de estupro e três mulheres são vítimas de feminicídio a cada dia. Em Minas Gerais, os índices de lesão corporal dolosa por violência doméstica à mulher é de 21.960 por 100 mil habitantes em 2019. Todos esses números crescem ano após ano!

As taxas de feminicídio são altíssimas no país! Sem nenhuma novidade, as mulheres que mais sofrem, estatisticamente, são as negras, com 61% dos feminicídios sendo cometidos contra elas entre 2017 e 2018. A relação entre a vulnerabilidade social e a violência também pode ser percebida a partir da escolaridade: 70,7% das vítimas cursaram até o ensino fundamental, enquanto 7,3% têm ensino superior. Quase 60% dos feminicídios são contra vítimas que tenham entre 20 e 40 anos, sendo o ápice da mortalidade por feminicídio aos 30 anos.

Vale destacar que em 88% dos casos essas violências são consumadas por pessoas cujo vínculo é afetivo-amoroso (homens cisgêneros – maridos, namorados, ou ex), mas não se restringem ao âmbito da convivência doméstica. Além disso, quase 2% dos agressores tem outra relação, como de parentesco ou “conhecido”.

Com a pandemia e o isolamento social esses números cresceram ainda mais. Um levantamento realizado entre os meses de março e abril deste ano apontou que os casos de feminicídio no Brasil aumentaram em 5% em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 195 mulheres assassinadas em todo o território nacional apenas nesses dois primeiros meses de isolamento. Importante ressaltar que durante esse período a subnotificação fica mais evidente, já que há dificuldade de comunicação enquanto vítima e agressor ficam isolados em uma mesma casa.

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Foto: Fábio Xavier

Bom, mas e o futebol? O futebol segue uma padronização dentro de uma cultura cisheteropatriarcal branca. A história nos mostra que ele foi, por tanto tempo, considerado ambiente impróprio para a prática de mulheres. Mesmo com a queda do decreto lei em 1979 e a regulamentação do futebol feminino em 1983, a estigma de “futebol não é pra mulher” permanece ainda hoje, em pleno 2020.

Se você é mulher e gosta de futebol, provavelmente já passou por algumas situações nas arquibancadas, rodas de amigos ou mesa de boteco. Aquela comum de exigir conhecimentos que não são questionados quando o interessado pelo futebol é homem, as “piadas”, os assédios dentro do espaço da arquibancada, as músicas ofensivas proferidas pelas torcidas organizadas ou mesmo o impedimento pelo próprio clube de comprar modelos diferentes de materiais esportivos por não ter disponíveis nas versões femininas. Se você não é mulher, tenho certeza que conhece alguma que já passou e passa por essas situações. Converse com elas!!

Isso tudo estamos considerando mulheres cis. Quando o assunto é travestis e mulheres trans no mundo do futebol, a realidade é ainda pior. Quantas mulheres trans você já viu em arquibancadas de estádios pelo mundo? E a prática por parte delas, não existe? Elas são completamente invisibilizadas dentro do ambiente futebolístico.

 

Como, nas lógicas da vida social, o futebol foi atribuído aos homens, sendo público majoritário deste esporte, inclusive o praticado por mulheres. E devido a isso as jogadoras são colocadas num lugar de consumo, sendo tidas como adornos e entretenimento para esse suposto público masculino, que, convenhamos, acaba reforçando essas “funções”. Além disso, na ótica da manutenção do futebol como reduto da cisheteromasculinidade, para além das sanções e concessões, o que vemos é que mulheres sofrem cotidianamente violências (psicológicas, verbais e físicas inclusive) por serem jogadoras de futebol.

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Foto: Fábio Xavier

Quando falamos do futebol feminino essa rejeição é escancarada. Os clubes não entendem a modalidade como espaço para fortalecimento da mulher. Ela tem sido tratada, em grande maioria, como mera obrigatoriedade, sem necessariamente abraçar a causa e fomentar o desenvolvimento do futebol feminino.

Em Roraima, o estado com maior índice de violência contra a mulher, segundo dados do Monitor da Violência em 2019- parceria entre o G1, a USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública – , vários são os relatos de atletas que vivenciam e/ou vivenciaram alguma forma de opressão e agressão pela sua escolha à prática do futebol. Essas mulheres, que pela construção desigual do futebol não podem desempenhar apenas a função de jogadoras, acabam conjugando outras funções fora de campo e, mesmo assim encontram uma série de opressões e violências ao seguirem participando da prática esportiva.

Em reportagem publicada pelo globoesporte.com, em setembro de 2019, uma das entrevistadas sofreu agressões no âmbito familiar por se dedicar ao futebol, porque isso, para a mãe, principalmente, significava uma ruptura com com a feminilidade esperada. Outra teve que terminar o relacionamento conjugal para seguir jogando, tendo em vista que o marido, apesar de não proibir, construía esquemas que a impediam de participar dos jogos, interceptando, inclusive, a comunicação dela com suas amigas. Seguindo a máxima do “ele nunca me bateu”, mas cometeu inúmeras outras formas de violência.

Cabe destacar, que para além das instituições no combate às violências, muitas vezes encontramos mulheres se respaldando nesse enfrentamento cotidiano. Essas lógicas de resistência, que permitem a existência, passa muitas vezes pela associação e redes construídas entre as próprias mulheres. Isso de forma mais geral, pode ser visto nas casas-abrigos que acolhem mulheres vítimas de violência, bem como nas articulações que são traçadas com amigas, vizinhas numa lógica de solidariedade para o afastamento desse ciclo reiterado de violações. No contexto do futebol, há uma série de mulheres que se juntam e se apoiam na prática e na torcida. E, no que tange à reportagem, por fim, isso é explicitado em um time composto por diversas gerações de mulheres de uma mesma família que decidiram se inserir no contexto futebolístico. Lutando contra todas as adversidades e sustentadas nas lógicas de ancestralidade, essas mulheres exemplificam a lógica de sobrevivência feminina dentro da cultura do cisheteropatriarcado.

O combate à violência contra a mulher faz parte da nossa emancipação! Caso precise de uma rede de apoio, nós do Galo Delas estamos dispostas a te ajudar! Você pode entrar em contato com a gente em qualquer um de nossos meios! Para além disso, lembrem-se sempre do 180 como um canal para denúncias!

 

Texto por: Renata Lemos e Bárbara Mendes

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