Violência psicológica: verdades e mitos

Violência psicológica, também conhecida como violência emocional, simbólica ou moral, é qualquer ato ou conjunto de atos causadores de danos à saúde psicológica, à autodeterminação ou ao desenvolvimento pessoal e emocional da mulher, que traz danos à sua motivação, à sua autoimagem e à sua autoestima (BRASIL, 2006 ; CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2012). Vide texto Betania.

Foto por Eternal Happiness em Pexels.com

Pode ser realizada em forma de rejeição, humilhação, isolamento social ou familiar ou restrição do direito de ir e vir, vigilância e perseguição, exploração e agressão verbal e oposição à liberdade de crença. Finalizando essa longa lista, a manipulação, a chantagem, e fazer a mulher duvidar de si mesma através de omissão de fatos ou distorção de suas palavras (ato também conhecido pelo “palavrão” Gaslighting), também são formas de se atacar psicologicamente uma mulher.

Embora, muitas vezes, esse tipo de violência seja considerado “menor” ou menos relevante, ele é capaz de causar danos de igual tamanho aos da violência física. Muitas vezes, inclusive, vindo acompanhado de violência física. Aliás, para pensarmos, toda violência física tem, também, seus efeitos psicológicos, uma vez que na prática, não há como fazer essa separação entre o corpo e a mente, e, ter a sua integridade física ameaçada evoca emoções e sentimentos diversos.

Concorre ainda para levarmos mais a sério esse tipo de violência, o impacto que ele pode ter no risco de mortalidade de mulheres, principalmente na infância e na velhice (BARUFALDI e outras autoras, 2017), momentos da vida nos quais as mulheres ficam, via de regra, mais vulneráveis ao exercício de poder de outras pessoas sobre os seus corpos.

E não, a violência psicológica não acontece somente com as mulheres, mas elas são ¾ do número de pessoas atingidas quando levamos apenas em consideração homens e mulheres e não contabilizamos outros gêneros que, sabemos, se encontram em situação de vulnerabilidade ainda maior pela lógica cisheteronormativa que permeia as nossas relações sociais.

Foto por Engin Akyurt em Pexels.com

Alguns sinais importantes

Não raramente, a violência psicológica acontece de maneira silenciosa e acaba sendo subnotificada (não comunicada oficialmente) tanto pela dificuldade da pessoa que sofre os atos em reconhecê-los, quanto pela dificuldade de, uma vez reconhecendo-os, comprová-los. Assim, muitas mulheres não buscam ajuda por, além das violências já sofridas, correrem o risco de sofrer uma desmoralização por relatar um sofrimento muito íntimo enquanto ainda tentam entendê-lo.

Algumas perguntas nos ajudam a enxergar sinais importantes sobre esse tipo de violência:

  • A pessoa com a qual me relaciono (seja qual for o tipo de relacionamento) sempre tem uma crítica sobre o meu jeito de ser ou sobre como faço as coisas?
  • Ela sugere constantemente que eu seria melhor se agisse de outra forma ou usasse outras roupas?
  • Diz coisas com o único objetivo de me ver irritada e se divertir com isso?
  • Altera o tom de voz para mais baixo para dizer que sou descontrolada e estou gritando?
  • Distorce o conteúdo da mensagem para dizer que estou errada?
  • Combina alguma coisa comigo e depois diz que não foi nada daquilo?
  • Se dirige a mim como se entendesse mais o que acontece comigo do que eu mesma?
  • Fala que vai parar de falar comigo ou me castigar de outra forma se eu não fizer o que ele pede?
  • Me diz ou me faz sentir como se eu não fosse capaz de viver sem ela?
  • Me impede de trabalhar ou, de alguma outra forma, me coloca como dependente dela sem que eu perceba ou sem que eu queira?
  • Não me deixa conversar com outras pessoas?
  • Justifica ciúmes com amor?
  • Me agride verbalmente?
  • Me faz sentir mal simplesmente por ser quem eu sou?

Se você reconhece que recebe algum desses tratamentos de maneira muito forte em sua vida, ou vários deles ao mesmo tempo, seja em que tipo de relacionamento for (com pais, mães, namorades, ficantes, amigues), talvez seja uma boa procurar a ajuda de alguém próximo para conversar ou mesmo alguma ajuda especializada para pensar e agir sobre o que está acontecendo. Clique aqui para ajuda gratuita!

Foto por Oleg Magni em Pexels.com

Alguns mitos

Por ser menos levada a sério que a violência que culmina em alguma expressão física, alguns mitos relacionados à violência psicológica, por vezes, acabam não sendo discutidos. Aqui temos alguns exemplos:

Mulheres com alto grau de instrução formal não estão suscetíveis à violência psicológica.

Não é verdade. Ser vítima de violência psicológica não se relaciona diretamente com a escolarização das pessoas.

Homens que apoiam lutas feministas são incapazes de cometerem violência psicológica.

Outro engano. Nem sempre o que apoiamos de forma racional e consciente condiz com as nossas práticas, por isso é sempre bom estarmos atentos a elas!

Nas relações entre mulheres não existe violência psicológica.

Também é mito, pois mulheres também reproduzem em suas relações a violência psicológica.

A violência contra a mulher não distingue classe, raça/cor/etnia, idade…

Distingue, sim. Mulheres negras e pobres estão mais suscetíveis à violência psicológica, justamente por esse tipo de agressão estar intimamente ligada às condutas racistas e, às de outros modos discriminatórias, que se manifestam também de forma verbal, disfarçadas de piadas, na construção de muros de invisibilidades. Embora, em alguns casos, os números possam ser mais próximos, entre 2011 e 2015, jovens negras entre 10 e 19 anos foram 62,4% do total de vítimas de violência psicológica que chegaram a óbito por agressão (BARUFALDI e outras autoras, 2017).

Não naturalizemos a violência psicológica!

Uma das dificuldades no enfrentamento coletivo da violência psicológica é a facilidade com a qual normalizamos a sua prática quando dizemos: “mas é apenas uma piada”, “você está exagerando”, “homens são assim mesmo” e outras frases comuns que utilizamos para não encarar o problema. Então, talvez, esse seja um dos pontos-chave de combate à violência contra a mulher: não a naturalizemos!

Referências

Além de atleticana, Marina de Mattos Dantas é psicóloga (CRP 04/28.914), professora e pesquisadora. Mestre em psicologia social (UERJ) e doutora em ciências sociais (PUC-SP). Integrante do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT/UFMG) e do Grupos de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social do Esporte (GEPSE/UFMG). Produtora e comentarista no Programa Óbvio Ululante da Rádio UFMG Educativa e Colunista no Ludopédio. Instagram: @marina.mattos.psicologa

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