O futebol de mulheres e os movimentos feministas

O futebol de mulheres está intrinsicamente relacionado aos movimentos feministas. Parece óbvio, mas não é. E é por isso que resolvi trazer um pouco dessa reflexão hoje. Se você já torceu o nariz ao ler feminismo, calma, vamos desmitificar algumas coisas sobre isso.

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Foto: Galo Delas

O feminismo é um movimento social, político e filosófico que surge no século XIX e busca igualdade entre homens e mulheres e, consequentemente, questiona a participação da mulher na sociedade. É importante entender que nossa sociedade é regida por uma lógica patriarcal, e isso não é bobagem como muitos pensam. Quando olhamos a história ocidental, eurocentrista, a mulher era considerada como inferior, frágil. A família era regida pelo homem e à mulher era vedado “privilégios” como ler, escrever, estudar, guerrear…O papel da mulher nessa sociedade era unicamente de cuidadora, tanto do lar quanto dos filhos. O trabalhar era considerado responsabilidade masculina, que tinha como dever o sustento da família.

A Revolução Francesa (1789) culminou na elaboração da ‘Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”. E veja bem, direitos do homem!! A mulher sequer era reconhecida enquanto cidadã. E foi por isso, que a francesa Olympe de Gouges escreveu, em 1791, a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, combatendo o documento anterior que somente se aplicava aos homens e alertando da importância das mulheres e da igualdade de direitos. É claro que ela não teve o resultado que desejava. Foi executada em Paris dois anos depois, mas foi graças a ela que os movimentos feministas apareceram posteriormente. Seu posicionamento e sua execução foi como uma semente para que as mulheres começassem a repensar a sociedade.

O século XIX vem com a Revolução Industrial que coloca a mulher como força de trabalho nas fábricas. Aos poucos, os movimentos feministas começam a tomar corpo, vão se fortalecendo e passam a reivindicar direitos, como voto, propriedade, educação, divórcio, etc.  Aqui no Brasil, é durante o Império que as mulheres conquistam seu direito à educação, por exemplo.

Mas é no século XX que as mudanças aparecem com maior força. A mulher conquista seu direito ao voto e a candidatura. Isso significa que ela passa a ser reconhecida enquanto cidadã e começa a participar da vida política.

É preciso entender que os movimentos feministas são ainda muito necessários hoje em dia, mesmo depois de tantas conquistas. Ainda falta um longo caminho para se chegar a uma igualdade. É preciso entender também que feminismo não é um movimento único, são vários os feminismos, com vários entendimentos de caminho, de adequação, de ideologia política, de agregação ou não de outras identidades. Não podemos colocar tudo em um pacote só.

Muita coisa já foi conquistada, mas tantas outras ainda precisam da luta. Lembra do patriarcado que sustentou a cultura social até o século XX? Não pense que ele desapareceu. De forma mais explícita ele aparece quando um homem se sente menos homem por não ser o maior responsável pelo sustento da família. Mas não se engane, ele está aí, enraizado em nossa cultura, oprimindo, silenciando, violentando e matando mulheres o tempo todo. Ele se mostra quando sua mãe é a responsável pela limpeza e organização da casa enquanto seu pai assiste televisão; quando o pai do seu filho acha que faz muito pagando pensão e cuidando da criança no fim de semana; quando seu amigo acha que quando a mulher está bêbada é mais fácil para “pegar”; quando seu irmão usa expressões como “vai ficar pra titia” ou “o almoço está uma delícia, já pode casar”; ou quando um pai coloca o filho para fazer aula de futebol e a filha para fazer balé, porque futebol é coisa de menino e dançar é coisa de menina!

Pronto, chegamos ao futebol. Se você for homem, provavelmente (e eu digo isso porque você não é obrigado), jogava futebol no recreio da escola, na educação física, na rua, na quadra do prédio, nos encontros com os amigos ou até fazia aula. Eu pergunto: quantas meninas participavam desses jogos com você?

O futebol ainda é um espaço essencialmente masculinizado. A gente pode pensar isso pelo viés da arquibancada, da homofobia…mas vamos focar hoje na prática do futebol pelas mulheres. Nós, mulheres, somos educadas, desde pequena, a sermos mães, cuidadoras do lar. Nós ganhamos bonecas e panelinhas de presente. Não somos, de maneira geral, incentivadas a jogar futebol. É por essa lógica que o futebol feminino deve ser entendido como um campo de luta feminista.

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Foto: Fábio Xavier

Se, por quase quarenta anos o futebol feminino foi proibido no Brasil seguindo aquela lógica de “papéis de gênero” que considerava a mulher frágil, sensível e, por isso, eficiente e suficiente apenas para atribuições de cuidado, foi através de muita luta e resistência que essa lógica foi oficialmente superada e assim liberado o jogar futebol pelas mulheres. Eu digo oficialmente, porque na prática as mulheres, ainda hoje, em 2020, são socialmente entendidas enquanto seres frágeis, inferiores fisicamente, e continua existindo toda uma lógica de que a mulher tenha a responsabilidade (às vezes a única responsabilidade) de cuidados do lar e dos filhos.

A “fragilidade” feminina é tão presente no futebol de mulheres que ainda hoje ouvimos sobre a inferioridade técnica e física das atletas. Argumentação que já não se sustenta, mas por uma questão de continuidade cultural, este pensamento se perpetua.

Se o campo de jogo é um lugar ainda de restrição da presença feminina, os movimentos feministas devem abraçar a modalidade enquanto um dos braços de sua luta. A visibilidade, a valorização e o crescimento do futebol de mulheres significa a emancipação da mulher dentro do esporte, ou melhor, dentro do futebol, dentro de um campo de domínio masculino. É por isso que reforço a ideia de que movimentos feministas, coletivos, grupos, etc, devem abraçar o futebol de mulheres em sua luta. Isso vai além do interesse pelo próprio futebol.

Para além disso, a própria modalidade deve olhar para a luta feminista como base importante de apoio para o seu desenvolvimento aqui no Brasil, e também lá fora. Entender o seu papel de mulher dentro desse contexto social de masculinização do futebol é fundamental para o fortalecimento da modalidade, que gera consequências inclusive individuais.

Termino essa reflexão dizendo que ninguém é obrigado a seguir ou não uma filosofia, ou abraçar ou não uma luta. Mas é de extrema importância conhecer os movimentos e as ideias, para que assim se estabeleça uma conexão entre seus próprios sofrimentos individuais a uma coletividade. Você não está sozinha, e não deveria pensar que está só. Somos muitas, somos fortes e quando nos apoiamos, crescemos ainda mais! Se você se entende feminista, pense com carinho sobre o futebol de mulheres. E se você é atleta, sugiro conhecer mais sobre os movimentos feministas para entender melhor sobre tudo isso!

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