SETEMBRO AMARELO E AS MULHERES DO FUTEBOL

Sempre acreditei que as características de personalidade e a estrutura cognitiva são o que norteiam o ser humano em sua caminhada, incluindo homens e mulheres que jogam futebol. Todos os outros aspectos (motivação, liderança, estresse, concentração etc.) derivam dessa dobradinha de um modo geral. Então, o que o indivíduo pensa, sente e como consequentemente age, ou seja, seu comportamento, tem a interferência direta de seus traços de personalidade e de sua cognição. Minha vivência de vastos anos de caminhada na vida, além de mais de 13 anos trabalhando com o futebol, fortalecem essa perspectiva.

Imagem da internet

Como estudiosa da estrutura de personalidade de atletas de futebol, sejam eles jogadores ou árbitros, homens ou mulheres, venho agora falar um pouco sobre as questões de suicídio nesse meio. Estamos adentrando o mês de setembro e é tempo de voltarmos nosso olhar para esta atuação do ser humano.

Ato de total desespero em que uma pessoa tira sua própria vida, não querendo acabar com ela, mas pensando em acabar com seu sofrimento, que neste momento parece insustentável. É um comportamento de tamanha dor que o indivíduo não enxerga a luz no fim do túnel e, portanto, não tem escolha.

Vou discorrer aqui sobre a minha perspectiva visando este contexto de atletas, pessoas do futebol, os quais acompanho e estudo os aspectos psicológicos. Acredito que irei na contramão de algumas falas que tenho visto na mídia, mas como fui convidada a dar minha opinião, falarei do que o meu coração e minha prática me dizem, mesmo que aparentem ser otimistas demais – sempre faço limonada dos muitos limões que a vida me traz.

Independente do gênero, os pequenos atletas vão para o campo buscando satisfazer um prazer dos seus pais e às vezes seu, como também de quase todos os jovens brasileiros e suas famílias, que sonham um dia serem reconhecidos por sua bola no pé. Estar em campo jogando e mostrando sua destreza é simplesmente maravilhoso, se não fosse todo o contexto que se superpõe à bola.  A luta diária para alcançar ou mesmo manter a posição já alcançada, os limites pessoais, físicos, técnicos, táticos e psicológicos que devem ser expandidos se apresentam como padrões que não podem ser deixados de lado e que devem ser alcançados custe o que custar.

O contexto do futebol é um ambiente DE-PRESSÃO, nos sugerindo que sofrer de depressão seria de certa forma natural. É bastante pertinente pensar que atletas em desenvolvimento ou mesmo os formados, que já detém um padrão ouro de status, tenham sentimentos que propiciem o estado depressivo. Sentimento de tristeza, saudade, impotência, fracasso, incerteza, arrependimento e outros fazem parte da vivência de atletas. O que difere é como são percebidos, sentidos e o que estes atletas fazem com eles.

Foto por Ketut Subiyanto em Pexels.com

Nesse sentido, o próprio meio se faz excludente, ou seja, só permanecem na base do futebol os que têm determinadas características que os fazem sentir toda a pressão existente e, mesmo assim, se destacar nessa situação. Sentir desânimo e pessimismo e não se entregar, continuar lutando durante o dia apesar do choro a noite, esse é o perfil deste ser humano do futebol.  E é aí que está a diferença: suas características mentais são diferenciadas.

Eles são fortes mentalmente, gostam de desafios e sempre buscam alargar seus limites. Não se abalam com tanta frequência nem se lamuriam ou trazem para dentro de si o sofrimento que o meio impõe. Eles acatam o que é necessário fazer e, por mais difícil que pareça, fazem. Sua visão está na meta final, no que estabeleceram para si, e isso direciona seu comportamento. Portanto, existem sim depressão, tristeza e até pensamentos de morte ou, muito raramente, algum ato que transcende o planejamento, no entanto, são minoria se aplicarmos as estatísticas.

E as mulheres do futebol?  Dessas sinto um tremendo orgulho! Sinto prazer em falar delas, talvez porque eu também seja uma mulher do futebol – uma psicóloga do futebol. Sim, podemos nos considerar todas mulheres do futebol: coordenadoras, auxiliares, repórteres, blogueiras, etc. Todas que lutam por um ideal, lutam pelo valor da mulher guerreira, pela igualdade de gênero.

As meninas do futebol, além de terem que suplantar as questões de desempenho que perpassam o esporte de um modo geral, precisam também se afirmar neste contexto eminentemente masculino, que até bem pouco tempo atrás nem se dava conta de que elas também estavam inseridas nele. A oportunidade no Brasil se apresentou para elas depois que a CONMEBOL (Confederação Sul Americana de Futebol) decretou que todos os clubes que disputam competições da Conmebol, seja Sul-Americana ou Libertadores, tem obrigação de manter o futebol feminino.

Para elas, a tarefa é árdua e complexa. Lidar com as diferenças no processo buscando o mesmo fim é desgastante e exige delas força e determinação. E isso elas têm! Seu perfil de personalidade demonstra que são bastante diferentes das mulheres da população em geral. São muito mais determinadas, autossuficientes, ambiciosas e fortes. Sim, fortes para não desistirem e encararem de frente quem, às vezes, nem as querem ali no campo. Como podem então deixar crescer a dor e a tristeza, que por vezes passam em suas mentes, se é necessário demonstrar durante todo o tempo sua força e capacidade?

Aliado às questões de perfil psicológico descritas acima, sabe-se também que o desequilíbrio hormonal presente na depressão pode ser combatido com a prática desportiva. Isso seria mais um fator contra o transtorno depressivo que pode culminar, em muitos casos, em suicídio. Apesar de meu otimismo natural, visão mais tecnicista e pragmática, além de estudar somente atletas de futebol, deixo aqui, para finalizar, um recado muito importante. Hoje existem psiquiatras esportivos que podem medicar sem trazer grande prejuízo ao desempenho. Portanto, se a dor está insuportável sendo você do esporte ou não, ou mesmo se alguém do seu convívio está demonstrando tristeza e pensamentos de desesperança, procure ajuda.

Liguem 188 – CVV (Centro de Valorização da Vida), 24 horas disponível.

Alessandra Peixoto Monteiro é psicóloga, professora e possui ampla atuação na psicologia esportiva. Especialista em Psicologia do Esporte (Castelo Branco e pelo Conselho Federal de Psicologia), especialista em Terapia Cognitiva Comportamental (Instituto WP) e mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Diferenças Individuais (UFMG). Professora da Universidade Salgado Filho e do curso de formação de árbitros da Escola Mineira de Futebol. É proprietária da Clínica Esportivamente, onde atua como psicóloga clínica e esportiva. Trabalhou como Psicóloga do Atlético, América e da FMF e foi instrutora Nacional do Pilar Mental da Comissão de Arbitragem da CBF no Sudeste (Ca-CBF). É secretária da AMPF – Associação Mineira de Profissionais de Futebol e membro da Abrapesp – Associação Brasileira de Psicologia do Esporte.

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