O que apagamos quando tiramos o gênero do futebol?

Toda nomeação tem efeitos! E eu vou tentar explicar, da melhor forma possível e sem me fazer repetitiva, o quanto marcar o gênero nos contextos esportivos, bem como outros atravessamentos sociais se faz importante, principalmente quando falamos da “paixão nacional”. Vale destacar que essa reflexão não começa e nem termina aqui1, mas vou trazer para vocês o que andei problematizando ao me deparar com uma série de pessoas que insistem em dizer que em vez de pautar o futebol feminino ou futebol praticado por mulheres, deveríamos chamar apenas de futebol.

Foto por RF._.studio em Pexels.com

Começando do básico: quando falamos sobre futebol, usando somente esse termo, o futebol feminino te vem à mente como uma possível referência? Se sim, provavelmente você tem algum envolvimento com a modalidade. Mas é provável, devido o desconhecimento e a não construção do interesse sobre o futebol praticado por mulheres, que quando se fale em futebol de forma geral, ainda seja a categoria masculina que te venha à cabeça.


Nesse ponto faz-se necessário pensarmos na lógica de desigualdades que pautam as duas categorias e inclusive na necessidade de ressignificação de alguns termos.


É fato que a forma como se forjam as duas categorias, masculina e feminina, no contexto futebolístico guarda enormes distanciamentos, que por vezes parecem intransponíveis. Podemos começar a pensar sobre essa dinâmica a partir da socialização e sociabilidade, extremamente generificadas na nossa sociedade, guardando às masculinidades a possibilidade de prática do futebol. Vale ressaltar ainda, que dentro dessa lógica, se você não se enquadra num padrão cisheteromasculino2, há poucas opções, que giram em torno da exclusão e subjugamento nesse contexto esportivo, ou que se utiliza dele para reafirmar a sua ruptura com o modelo ideal e normativo. Isso já faz com que as mulheres, nessa lógica, comecem nessa “competição” em desvantagem!


Como um dos efeitos dessa construção de gênero no futebol, poderíamos evocar a temporalidade das modalidades no contexto brasileiro. Enquanto o futebol praticado por homens tem um mito fundante que remonta os anos de 1894, o futebol feminino tem relatos de início na década de 1920, vinculado a uma atividade circense3, numa lógica do absurdo. Fazendo uma rápida linha do tempo, depois desse período alguns jogos ocorreram em estádios por volta de 1940 e em 1941 baixou-se o [famigerado] decreto-lei que proibia às mulheres a prática de esportes que poderiam prejudicar o seu “frágil aparato feminino”.


A liberação para a prática do futebol por mulheres vem somente em 1979, ainda sem regulamentação, que só aconteceria em meados de 1983. Cabe destacar que o primeiro mundial de mulheres, que aconteceu em 1988, teve caráter experimental. Nessa época, a modalidade masculina já estava mais que estabelecida e vinculada a uma lógica de identidade nacional. Então, realmente, não é comparável… e sim, é desigual!

Bruno Cantini / Atlético


Por conta disso, também não é possível se equiparar investimentos, patrocínios, lucros, entre outros elementos do âmbito financeiro, no que tange às modalidades feminina e masculina. E nessa lógica o futebol feminino é desvalorizado e entendido com um status inferior ao masculino. Inclusive em elementos que transcendem o âmbito da renda e monetização. Alguns dos comentários falam em desorganização, mencionam idade das jogadoras e até corporeidade como elementos que respaldam essa subalternidade das mulheres na prática futebolística. O interessante é que não vejo um questionamento sobre a organização institucional dessa categoria. Pelo menos não por parte dos críticos! E cabe lembrar que a modalidade passa a se desenvolver no contexto brasileiro por uma obrigatoriedade. Por conseguinte, é ainda extremamente fragilizada, no que tange a possibilidade de consolidação, tendo em vista uma constante referência ao futebol masculino para a definição dos parâmetros do futebol de mulheres.


Ignora-se que o futebol carrega uma diversidade enquanto modalidade e que falar sobre isso ou invisibilizar essa questão são escolhas políticas. Há que se buscar uma horizontalidade quando se pautam esses “futebóis”4, mas enquanto ainda não temos uma equidade, não é possível retirar as marcações identitárias das práticas. O futebol “genérico”5 não é praticado por mulheres, e essa suposta universalidade da prática atrelada ao masculino reforça o que queremos tornar visível ou não. Mas cabe pensar quais são os efeitos desse processo. Até que ponto colocar tudo no âmbito do futebol não mantém o essa hegemonia cismasculina no contexto futebolístico e não contribui para uma série de injustiças vivenciadas pelo feminino?


Digo isso pensando nas últimas conquistas do futebol praticado por mulheres no Brasil, junto à CBF. Foi uma luta de anos equiparar o pagamento de diárias e premiações, bem como a inserção de mulheres na coordenação do futebol feminino. Caso a marcação identitária tivesse sumido da nomeação, seria mais fácil argumentar essas necessidades específicas de uma categoria que luta para a sua efetivação como um esporte legítimo em âmbitos nacionais e internacionais? Eu não tenho como responder isso com certeza, porque a história não trabalha com “se”, né?! Mas é fato que nomear tem efeitos que vão além da ideia do nome, e que se relacionam diretamente com esses enfrentamentos a duras penas. Deste modo, articular o futebol ao gênero tem efeitos políticos que podem possibilitar maior ou menor reconhecimento de práticas e sujeitos. Alguns desses mais observáveis que outros, inclusive.


Acho que nossa concepção de futebol, seja no tratamento do jogar futebol ou do torcer, tem que carregar as categorias que se vinculam à essas práticas. E ainda falta muito pra gente conseguir construir um futebol democrático. Mas me parece que o ato de nomear, por mais simples que possa parecer, tem alguns efeitos objetivos nesse contexto, que vão deste o avanço a duras penas na CBF, que ainda não são seguidos pelo mundo de uma forma geral; até a construção de um blog que se destina a falar sobre futebol construído por mulheres, que estão reavendo seus lugares nesse contexto, também em pequenos passos. Pra romper com essa desigualdade atos políticos de reflexão-nomeação me parecem importantes ao pensar nessa feminilidade que se constrói no futebol de forma mais ampla. Assim, a tentativa é provocar quem lê esse post, assim como me provoco quanto penso naquilo que consumo, leio e falo esse tema… Gênero , raça, sexualidade e classe fazem parte das suas preocupações ao pensar sobre futebol?

Notas:

  1. Essa conversa começa na realidade com Marina de Mattos Dantas, colaboradora do Galo Delas e minha amiga, com quem fico devaneando sobre esses e outros temas cotidianamente. Fica aqui meu agradecimento!
  2. Cis – relativo à cisgeneridade que segundo Jaqueline de Jesus se relaciona à identificação com o gênero que fora atribuido no nascimento, hetero – relativo à heterossexualidade como orientação sexual. Nesse caso, então trata-se da masculinidade enquadrada numa norma cisgênera e heterossexual. Para saber mais: JESUS, Jaqueline de. Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. Brasília, 2012. 
  3. BONFIM, Aira. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941). Dissertação defendida no Mestrado em História, política e bens culturais da Fundação Getúlio Vargas, 2019.
  4. Para saber mais, DAMO, Arlei. Futebóis–da horizontalidade epistemológica à diversidade política. FuLiA / UFMG, v. 3, n. 3, set.-dez., 2018. 
  5. Me baseei aqui nas construções de DANTAS, Marina de Mattos. Cartografias de um campo invisível: os anônimos jogadores do futebol brasileiro. Tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017.

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