A liberdade de brincar com os pés

Eu pensei em escrever o texto dessa semana abordando o mais recente caso absurdo de uma mulher sendo revitimada ao denunciar a violência sexual que sofreu. Poderia falar sobre a importância de atores sociais, como clubes de futebol, cobrarem justiça no julgamento do caso de Mariana Ferrer – e sobre como a única manifestação do Galo a respeito foi um tweet pífio no final do dia, que mais pareceu ter sido escrito na correria e por obrigação. 

Mas hoje não queria mais uma vez ter que falar sobre as tragédias que envolvem ser uma mulher brasileira. Quer dizer, eu vou ter que falar, mas também vou trazer coisas boas. Quero refletir sobre como o futebol pode ser alento na vida de uma menina, não fardo. Em São Paulo, quatro unidades da Fundação Casa (Centro de Atendimento Socieducativo ao Adolescente) promovem anualmente um Torneio de Futebol Society entre as meninas de 12 a 17 anos que cumprem medida socioeducativa.

Durante a sexta edição, no ano passado, o Dibradoras conversou com algumas participantes e viu como o esporte dá um pouco da liberdade que lhes foi tirada. É uma ferramenta de aproximação e de estabelecer vínculo com o próximo. Uma das meninas relata ter descoberto algumas mobilidades do próprio corpo, de onde conseguia chegar, e gostou disso. Outra conta que sempre jogou em escolinha de futebol e que cresceu algo dentro dela que a impelia a conseguir. Conseguir o quê? Jogar futebol significa se superar, melhorar, se dedicar. É um incentivo para buscar viver bem e melhor a cada dia.

A mais bela sequência de imagens do futebol brasileiro | Imagens: TV Galo

Fora as lições de boa convivência que ficam. Por causa do nervosismo, algumas meninas discutiram em campo: em conversa com o “professor”, perceberam que aquilo não as levaria para lugar nenhum, e que o companheirismo poderia ter levado à vitória. Assim foi também com a equipe vencedora, em que algumas jogadoras comentaram a importância do trabalho em grupo.

Recentemente, outro caso de violência sexual ganhou uma camada extra de tristeza por envolver uma menina de 10 anos e um aborto legal (conquistado a base de muita luta, apesar de ser direito básico). Depois de passar por tudo aquilo, ela tinha um grande desejo: “quero jogar futebol”. A enfermeira que a tranquilizava antes e depois do procedimento de interrupção da gravidez descobriu o gosto em comum que as duas tinham pelo esporte, e uma conversa sobre o tema a distraiu. 

“Falamos sobre times, sobre jogo, e ela se mostrou muito entendida, se interessou pelo assunto. Assistimos futebol em geral, filme e desenhos animados. Logo que ela saiu da sedação, disse que agora ia poder jogar bola, que estava louca pra voltar para casa para brincar de bola com o tio, que ela chama de irmão”

Relato da enfermeira Paula Viana, integrante da coordenação colegiada do grupo Curumim, publicada no blog Extraordinárias.

O jogo e o esporte seguro e inclusivo são direitos de toda criança e todo adolescente, assegurados na Convenção sobre os Direitos da Criança, na Constituição Federal brasileira e no Estatuto da Criança e do Adolescente. O Esporte para o Desenvolvimento é um direito de todas as meninas e todos os meninos, que, além de fazer bem à saúde, contribui para melhorar a autoestima, o equilíbrio físico e psíquico, a capacidade de interação social, a afetividade, as percepções, a expressão, o raciocínio e a criatividade. Com isso, é possível melhorar o controle do corpo e a capacidade de brincar, aprender e fazer amigos. Afetividade, eu acho, é a palavra-chave.

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