A pandemia que não existe pra FMF

O Campeonato Mineiro Feminino 2020 começou! O processo até aqui foi um tanto questionável. Quando a federação anunciou a primeira reunião para a organização da competição, alguns clubes mostraram interesse em participar. Além deles, também contávamos com a presença dos clubes que disputaram ano passado: Atlético, América, Cruzeiro, Ipatinga, Futgol, Valadares e Minas Boca.

Foto por Markus Spiske em Pexels.com

Infelizmente não foi o que aconteceu. O futebol feminino vive uma realidade muito complexa e algumas coisas tem agravado a situação. A obrigatoriedade imposta pela CBF e pela Conmebol fez com que Atlético e Cruzeiro montassem uma equipe profissional no ano passado e se juntassem ao América nessa categoria. Até então, não era exigido nenhum tipo de profissionalização para que uma equipe participasse da disputa regional, ou seja, as exigências se limitavam a presença de ambulância e médico à beira do campo. Em 2019 as coisas mudaram. Os clubes de “camisa” se sentiram prejudicados em montar uma equipe profissional e disputar um campeonato que não tinha nem adequação de campo.

Desde o ano passado a FMF exige que os clubes sejam profissionais, o que significa que eles precisam ter registro junto a federação, com pagamento de taxas e tudo mais, mas não é exigido que as atletas sejam profissionalizadas. Além disso, as condições do campo também passaram a ser fundamentais para a participação de equipes na competição, era preciso ter um campo gramado para mandar os jogos. Com isso, alguns clubes que já tinham tradição na competição e que não possuem condições financeiras e de estrutura para acompanhar a lógica da profissionalização do futebol feminino passaram a fazer parcerias que garantissem a eles a possibilidade de participação no Campeonato Mineiro Feminino. As sete equipes que disputaram no ano passado conseguiram atender às novas exigências da FMF.

Com todas as dificuldades que o futebol de mulheres já enfrenta, a pandemia da Covid-19 veio para piorar a situação. Durante a paralisação vimos inúmeros problemas serem escancarados, como desvio de recursos da CBF destinados à modalidade e até base desativada ou contratos suspensos por times mais estruturados, times de “camisa”.

Era mais que esperado que o Campeonato Mineiro Feminino sofresse com tudo isso. Depois de algumas desistências, cinco equipes demonstraram interesse oficial em levar o projeto adiante, mas, aos 45 do segundo tempo, Futgol resolveu não participar do campeonato. Essas desistências aconteceram muito em função do custo financeiro para a viabilização das exigências de protocolo do momento pandêmico. Se antes os clubes já deviam arcar com todos os custos da realização de jogo em seu mando de campo, além das taxas que são pagas para a FMF, agora a inclusão das testagens de identificação do coronavírus para todas as atletas e a cada rodada tornaram os custos completamente fora da realidade financeira dessas equipes.

Foto: Atlético / Divulgação

O Campeonato Mineiro Feminino começou e conta apenas com os três clubes da capital – que são clubes de “camisa” e bem estruturados – e um projeto muito interessante de uma parceria do Ideal com o Ipatinga.

Mas as coisas não param por aí. Na terça-feira as vingadoras estrearam na competição contra o América com vitória! A disputa, com mando de campo do Galo, aconteceu na Vila Olímpica. O clube de lazer do Atlético está em funcionamento, o que já é permitido na capital há algum tempo. Com isso, sócios podem frequentar o espaço do clube. Aí começa o problema.

O regulamento da competição disponível no site da FMF não prevê, em nenhum momento, nenhuma adequação à realidade atual de pandemia. É por esse motivo que o Cruzeiro, com surto na equipe feminina, não conseguiu o adiamento da partida de estreia contra o Ipatinga e contou apenas com 13 atletas para o jogo. O regulamento só prevê alteração de partida quando uma equipe não conseguir contar com o mínimo de 7 atletas. Não tem absolutamente nada de diferente do normal.

Todos os protocolos a serem seguidos são os nacionais, ou seja, os protocolos elaborados pela CBF, que preveem a testagem a cada jogo e também o ponto em que quero chegar: a não presença de torcida.

A gente sabe que, infelizmente, o futebol feminino mineiro ainda não movimenta muito público em seus jogos, a não ser algumas exceções. Porém, ao exigir que não se tenha torcedor presente, os clubes deveriam se adaptar para que a regra fosse cumprida, afinal, é uma questão de segurança, de saúde. Ao mandar os jogos para a Vila Olímpica o Galo não tem condições de garantir a não existência de torcedores ali. A piscina é ao lado do campo! A imprensa cadastrada para a cobertura do jogo, inclusive, ficou nas mesas disponíveis no entorno da piscina. É claro que os frequentadores do clube que estavam ali – não eram muitos, é verdade – se juntaram no parapeito para acompanhar a partida. Em certo momento uma sirene tocou para o encerramento das atividades do clube e o fechamento das piscinas, mas as pessoas que ali estavam continuaram nas dependências da Vila Olímpica assistindo à partida.

No Mineiro do ano passado, o Galo mandou seus jogos na Cidade do Galo, o que muito criticamos, inclusive, porque o espaço não permitia a presença de torcida. O público ali era restrito a imprensa e poucos convidados das atletas. Agora que é preciso limitar esse acesso por uma questão de segurança sanitária, o Atlético resolveu mandar seus jogos dentro de seu clube de lazer em pleno funcionamento. Na partida de estreia eram poucas pessoas ali presentes, até porque o jogo foi disputado em horário comercial (terça-feira às 15h), mas e quando o jogo for num sábado?

Às vezes a gente se sente repetitiva, mas fica difícil fugir desse tipo de crítica. Os clubes precisam ter mais responsabilidade sobre aquilo que fazem ou deixam de fazer. Como pode o Cruzeiro reclamar do não adiamento da partida se aceitou o regulamento como ele está? Como podem essas entidades ignorarem uma pandemia e taparem os olhos para presença de torcedores em jogos? Como podem os clubes aceitarem que a federação não faça nenhuma adaptação do regulamento da competição? Como pode a FMF, os clubes e todos os envolvidos não se importarem com os riscos aos quais expões suas atletas, funcionários e toda a sociedade ao fingirem estarmos vivendo numa normalidade? Estamos vendo o surto da Covid-19 no masculino do Atlético, será que assim veremos algumas mudanças de comportamento?

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