E as mulheres negras no futebol?

Nós decidimos há um tempo que não trataremos dias de luta como datas episódicas para abordar esta ou aquela temática. Porque as lutas e as vidas não se resumem a um mês ou dia específico, ainda que toda lembrança seja importante. Talvez, seja de tanto acompanhar os clubes que em nada se comprometem com as pautas abordadas, mas adoram fazer marketing e ganhar popularidade esbanjando sua suposta preocupação com determinadas demandas de minorias sociais, mas, efetivamente, não movem uma palha para que as coisas sejam diferentes. Assumem as hierarquias sociais e só aparentam questionar ou reconhecê-las quando é economicamente conveniente. Assim, passamos a repensar a dimensão das nossas ações lutando por um futebol praticado por mulheres que seja cada vez mais democrático e plural.

Foto : Cristiane Mattos / Atlético

Entretanto, esse mês foi controverso demais para que a gente pudesse ficar calada. Porque no Dia da Consciência Negra não foi possível celebrar as resistências históricas. Porque João Alberto Silveira Freitas não pôde ir ao supermercado e voltar para casa em paz. Porque o Beto é mais um corpo negro que cai nas estatísticas e nada, absolutamente nada é feito diante disso, a não ser a insistência bizarra de negar que o racismo é estrutural na nossa sociedade. E esse movimento, que atua junto a diversos outros negacionismos e conservadorismos sociais, parece crescer no contexto do futebol. E, assim, boa parte das pessoas que entendem o futebol, bem como outras práticas esportivas, como um momento de suspensão insistem em dizer que algumas lógicas racistas são parte do tom jocoso ou das lógicas construídas pelo contexto e que em nada diria de violências ou opressões.

Puxando para o futebol feminino eu poderia citar vários exemplos ressaltados por uma atleta que admiro muito: a Paçoca. Mas focando nos últimos eventos, o Gama, clube do Distrito Federal, protagonizou mais um dos descasos vinculados à modalidade. O time de mulheres foi supostamente arrendado por um homem chamado Ítalo Batista Teodoro Rodrigues, que por meio de promessas de boa qualidade de trabalho e desenvolvimento de carreira, levou mulheres do Brasil inteiro para a formação da equipe. Essa participação, entretanto, se deu mediante a um empréstimo feito por ele, com as atletas, para garantir condições melhores de estada como, por exemplo, o pagamento de diárias em uma pousada, colocada como alojamento do time. Entretanto, esse homem sumiu após ser impedido de acompanhar um jogo do time, quando toda a situação veio à tona. Fugiu com o dinheiro, com as promessas e com os sonhos, deixando as jogadoras sem ter inclusive o que comer e onde ficar. O Clube, que, nesse acordo escuso, cedia a marca, disse não saber da situação enfrentada pelas jogadoras antes do relato e menciona se sentir lesado, tendo em vista que Ítalo nem ao menos inscreveu um time completo para a participação no campeonato – o Candangão. Nessa dinâmica de empurra de responsabilidades, que para mim parecem no mínimo compartilhadas, o enfrentamento pra toda dificuldade fica a cargo das maiores vítimas do golpe: as atletas e a comissão técnica. E nesse processo essas mulheres seguem se ajudando. Para saber mais sobre isso, basta acessar o texto da Rê em que ela explica tudo com minúcia.

Tá bom! Mas o que isso tem relação com o que você estava mencionando antes sobre racismo? Então, boa parte dessas jogadoras que estão enfrentando essa dificuldade e que mesmo em meio ao caos se dedicaram aos treinos e aos jogos do campeonato são negras. Inclusive Ludymila Bárbara, que acumulou dívidas para abrigar as colegas de time que não residiam no Distrito Federal e que não sabe como vai lidar com toda essa situação. Quem quiser contribuir com as atletas, basta acessar aqui e/ou  aqui.

É importante trazer essas situações, porque há um tempinho foi publicado aqui no Galo Delas um texto que alerta para a importância de discutir o futebol praticado por mulheres sem ignorar o gênero. E hoje a provocação vai no sentido de pensar de forma interseccional: se a gente pensar só o gênero e ignorar questões raciais contribuímos para que? Até que ponto a gente não esquece a raça e outros marcadores sociais da diferença para pensar o gênero? Inclusive até que ponto isso não limita nossas perspectivas e possibilidades de ação, tendo em vista que, na maioria dos casos, como menciona Angela Davis, raça informa classe?

Foto: Daniela Veiga / Atlético

Quando pensamos na lógica de gênero que atravessa as vivências de mulheres cis ou trans no futebol, já pensamos em uma diversidade de experiências. E quando trazemos a raça para essa dinâmica assimétrica, a multiplicidade é ainda maior. As questões se complexificam e as desigualdades parecem se acentuar. Vou fazer um convite agora para que a gente pense um pouco sobre quantas atletas negras você conhece na história dos esportes… e do futebol?

Pois bem, a gente ainda circunscreve boa parte da discussão sobre racismo nos esportes e no futebol, principalmente, às modalidades masculinas e em situações episódicas. E se na pátria de chuteiras não há espaço para todas as pessoas, como há muito já é denunciado, quando falamos de mulheres negras essa interdição toma outros contornos. Isso, porque a lógica do racismo implica em uma segmentação do corpo negro que, no caso das mulheres negras, tiram o corpo da lógica da feminilidade hegemônica frágil e branca. As mulheres negras são colocadas na esfera da prática futebolística, por serem vistas meramente como corpos: corpos sob os quais estão postos desejos externos e que seriam “naturalmente” fortes e hábeis. Esse processo ignora que haja subjetividade naquele corpo, vontade ou agência. E as desigualdades se perpetuam, porque esses corpos seriam racializados e segmentados enquanto em contrapartida, os corpos brancos, principalmente cismasculinos, são vistos como sujeitos e universais.

Nessa lógica socialmente consensuada sobre as desigualdades sociais que nos perpassam e que co-construímos, diversas atletas são esquecidas: Formiga, Aline Milene, Pretinha, Michael Jackson, Kátia Cilene, entre outras. E vejam que nem foi mencionada aqui as mulheres negras da comissão técnica, porque na lógica racista, como dito anteriormente, elas são lidas como corpos e não sujeitos. Deste modo, no contexto futebolístico elas deveriam cumprir com o esperado e não agir por si. Elas deveriam existir somente no espaço que lhes é permitido-concedido, numa dependência forçada de marcas, líderes, comandantes – cargos que como corpo, cuja intelectualidade não é reconhecida, não são possíveis galgar. Mas elas, a contragosto de muitos, (r)existem!

Foto: Daniela Veiga / Atlético

E pensando nessa (r)existência é que hoje viemos divulgar uma importante ação proposta por três pesquisadoras em parceria com o Ludopédio e com o Observatório da Discrimação Racial no Futebol: a série de 11 textos que vai discutir futebol e racismo, trazendo “diversas vozes para esse debate e sem ignorar quem protagoniza essa história”.

Com o intuito de romper com uma falácia de que no futebol não haveria dinâmicas racistas, bem como de publicizar e exaltar produções de teóricas/teóricos negras/negros, essa serie inaugurada com o texto “Racismo: a quem interessa pensar que foi diferente no futebol?”, vem como um compromisso ético-político para se pensar questões raciais no futebol. Ela visa estender esse compromisso a todas as pessoas que se dedicam a pensar esse campo esportivo-social-político de forma pautada num posicionamento localizado e responsável sobre o contexto futebolístico. É uma lógica de descolonizar o saber produzido, até então, sobre pessoas negras no futebol que amplia a nossa perspectiva sobre essa vivência e nos implica em falar sobre as lógicas de precarização diferencial e politicamente forjadas às quais negras e negros são submetidos na nossa sociedade.

Assim, pensar o racismo no futebol seria num primeiro momento um desaprendizado, e depois um reaprendizado, que implica em dar espaço à voz de sujeitas e sujeitos que até então não são ouvidos, já que suas vozes são tidas como ruídos num mundo governado pela branquitude. Por fim, numa provocação mais que bem vinda, necessária, o texto inicial problematiza gênero e raça lembrando: (i) do quanto Marta, na história do futebol, aparece sobre um holofote da branquitude; (ii) o quanto outras jogadoras negras, como as mencionadas anteriormente, são esquecidas nessa história ; (iii) o quanto é compromisso de todas as pessoas que esse tema atue de forma a romper com a lógica branca que sustenta o contexto futebolístico.

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