Mulheres da várzea

É no terrão que boa parte das jogadoras de futebol se formam em Belo Horizonte. As equipes femininas dos times de várzea têm tradição que remonta desde pelo menos 1980, um ano depois da liberação da modalidade no país, que foi proibida de 1941 a 1979

Equipe feminina do Racing Esporte Clube, anos 1980. Acervo: Racing Esporte Clube.

O Campeonato Mineiro Feminino sempre foi da várzea até que, em 2019, a Federação Mineira de Futebol passou a exigir que os times participantes fossem profissionais. A decisão queria agradar os times de camisa do masculino que criaram suas equipes femininas naquele ano, uma tentativa de “profissionalizar o futebol feminino” que atropelou os principais times mineiros que sempre fomentaram a modalidade no estado. Desde então, os clubes participantes precisam arcar com todas as despesas da competição e não recebem nem premiação – mas já falamos sobre isso em texto anterior.

Angela comemora gol em segunda partida pelo Paraíso depois de ter seu filho, há poucos meses. Foto: Fábio Xavier

O primeiro time do Galo depois da volta do feminino ao clube em 2019 veio de uma parceria com um grande time da várzea, o Prointer. Infelizmente, a ideia que parecia linda no papel trouxe vários problemas e a baixa competitividade da equipe – formada, afinal, por atletas que não podiam dedicar 100% do tempo aos treinamentos – acabou levando ao seu desmonte. Até parece que o Galo não sabia que seria dessa forma, e muito nos decepcionou a covardia ao abandonar o projeto tão abruptamente. 

Agora, nosso time é misto, composto por jogadoras de várias partes do Brasil, muitas com experiência prévia no profissional. Mas o terrão não foi apagado da nossa formação. A jovem Nanda, goleira de apenas 15 anos que fez parte da nossa base – antes dela ser desmanchada durante a pausa da pandemia – e agora integra o profissional, já atuou pelo Najá e Tupinambás, onde pôde jogar com meninas pela primeira vez. Emily e Marcella também foram colegas de Tubinambás, de base e agora de profissional. Isso para ficar entre as mais novas, mas quase todas passaram por escolinha, futsal e/ou times de várzea.

Foto: Fábio Xavier

Além da própria brincadeira de rua e entre família, a várzea é a primeira oportunidade de meninas e mulheres jogarem de maneira organizada. Muitos bairros e comunidades da periferia têm seu próprio clube, então além da prática esportiva há o componente comunitário do futebol. Troca de vivências, lazer entre vizinhos e fomento da disputa e interação entre as diversas partes da cidade. 

As fotos que ilustram esse texto foram tiradas em partida do Paraíso contra Santa Cruz, de Caeté, pelo Campeonato Mineiro Feminino amador. Em casa, o Paraíso fez 4×2 e garantiu a classificação para a próxima fase da competição. O time da zona leste da capital é do tipo que tem torcida própria, canto, batuque, onde todo mundo é amigo e família. Onde mulheres pretas, LGBTQI+ e periféricas, junto de suas e seus cônjuges, filhos, mães, pais, vôs e vós curtem seu lazer e, quem sabe, tentam construir carreira. 

Termino com uma curiosidade: o Campeonato Mineiro Feminino amador tem premiação. O profissional, não.

Foto: Fábio Xavier

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