Quais‌ ‌corpos‌ ‌vestem‌ ‌a‌ ‌camisa‌ ‌do‌ ‌Galo?‌

*Escrito por Betania Carvalho e Patrícia Muniz

A cisgeneridade e a heterossexualidade compulsória articuladas ao patriarcado, ao capitalismo e à branquitude são os maiores responsáveis pela construção dos padrões de beleza da sociedade ocidental. Essas ideologias estão enraizadas em todos os ambientes, conduzindo as mídias e redes sociais e forjando padrões estéticos e comportamentais.

Fonte: Educa Mais Brasil.

Ao mesmo tempo que nos dizem que devemos amar o nosso corpo, também apontam como deve ser este corpo “amável”. Referências de beleza, moda e comportamento ainda são invariavelmente mulheres cis, jovens, brancas, heterossexuais, sem marcas de expressão, sem pelos, magras e definidas, cabelos longos e lisos, sem deficiências e, além disso, delicadas, frágeis e submissas. A famosa boneca Barbie, por exemplo, em escalas reais teria 1,75 m, com 45 cm de cintura, 91 cm de seios, 83 cm de quadris e pesaria cerca de 50 kg, sendo incapaz de ficar em pé ou acomodar todos os órgãos que temos.

Muitas vezes é possível identificar como as mídias e redes sociais são utilizadas para degradar a nossa autoestima e mutilar nossos corpos. Conseguimos apontar os problemas das propagandas de produtos femininos e criticamos a indústria que gira ao redor deste padrão, produzindo dietas infalíveis, induzindo à realização de cirurgias estéticas, dietas, skincare e outros comportamentos e rotinas “indispensáveis” para manter a “real” beleza feminina.

Porém, ainda assim, é difícil passar ilesa e não sentir o peso dessas imposições sociais. Essa cultura doentia força mulheres jovens e adultas a acreditarem que sempre há algo para “melhorar” na aparência ou alguns “quilinhos” a mais para perder. Os padrões de beleza são inatingíveis e nunca seremos suficientes, pois, de alguma maneira, o capitalismo se reinventa a fim de criar novas necessidades, produtos e procedimentos estéticos.

O ideal de beleza e comportamento não nos permite simplesmente envelhecer com nossas rugas e linhas de expressão que demonstram que somos apenas mulheres adultas ou idosas. Pelo contrário, nosso corpo deve se assemelhar muito ao corpo de uma criança sexualizada: magra, sem pelos, sem celulite, estrias, marcas de expressão, curvas, delicada, vulnerável, controlável, mas com seios siliconados, que é como o patriarcado considera bonito.

Fonte:  djvstock/Getty Images

Nesse sentido, é interessante refletir sobre como o futebol e seus produtos contribuem para a manutenção dos padrões estéticos e reproduzem a ideia de infantilização dos nossos corpos.

Após muitas reivindicações das torcedoras atleticanas a respeito da exclusão delas em relação a camisas e outros produtos esportivos do time, no último ano, o Atlético e a Le Coq lançaram várias camisas maravilhosas, inclusive com uma linha exclusiva para a equipe feminina. Comemoramos esse avanço para o futebol de mulheres do Galo, mas criticamos que os modelos a venda sejam direcionados apenas ao público feminino – como se homens e crianças não pudessem se interessar pela modalidade.

Porém, a decepção maior aconteceu quando torcedoras perceberam os tamanhos disponíveis para venda nas lojas físicas e pelo site: a largura das camisas femininas acompanha as medidas dos modelos infanto-juvenis. Para o modelo feminino, é possível comprar camisas que a largura varia entre 42 e 49 cm, do P ao GG. Nos modelos infanto-juvenis, de 8 a 14 anos de idade, a largura varia entre 43 e 48 cm. Por outro lado, os modelos masculinos têm tamanhos entre 51 e 63 cm, diferente né? E mesmo assim pode ser excludente para homens e mulheres.

Fonte: Loja do Galo.

Em uma busca rápida ao Google e clicando no primeiro link que aparece sobre o “corpo padrão” da mulher brasileira, encontra-se que, em uma pesquisa realizada em 2006, pelo SENAI, a média das medidas encontradas entre as brasileiras são 97,1 cm de busto, 85,4 cm de cintura e 102,1 cm de quadril. Evidentemente o “corpo médio” da mulher brasileira passou por muitas mudanças de acordo com cada época. Segundo Glória Kalil, nos anos 90, por exemplo, as dançarinas de axé trouxeram um novo padrão de beleza, com quadris mais largos e coxas mais grossas.

Contudo, o tamanho das camisas femininas ainda é assustador, seguindo um padrão que não acompanhou as mudanças nos corpos femininos. A camisa feminina M, por exemplo, tem 44cm de largura e seria adequada para quem tem cintura e busto até 88 cm, bem menor que a média das mulheres brasileiras.

A indústria da moda e o futebol ignoram a grande diversidade dos biotipos das mulheres e exclui muitas delas. É certo que os padrões de beleza impõem ideais de corpos inalcançáveis e que nós, mulheres, sempre estamos insatisfeitas com a nossa autoimagem, mesmo que nos aproximemos em algum grau a um ou outro padrão imposto. A pressão estética atinge a todas as pessoas, especialmente às mulheres, porém a gordofobia, além de oprimir, desumaniza e exclui – pessoas perdem o acesso a garantias mínimas de existência, seja limitando o tamanho das roupas, o espaço nos transportes públicos ou até mesmo equipamentos médicos. E, com essa atitude, o Galo demonstra quem quer como parte de sua torcida, principalmente feminina, e delimita quais corpos carregam a marca e o escudo do clube.

O que uma torcedora sente quando entra na loja do seu clube do coração e descobre que não tem o direito sequer de experimentar um modelo?

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