Futebol Feminino é uma realidade, sim!

Acredito que todos acompanharam a polêmica da semana envolvendo Enem, Bolsonaro e Marta. Resumidamente, no Exame Nacional aplicado no último domingo, uma questão abordava a diferença salarial entre Marta e Neymar, mostrando a disparidade de gênero dentro do futebol. Vale ressaltar, inclusive, que os dados utilizados estavam completamente desatualizados, pois são de 2016. Na questão Marta ainda não tinha conquistado sua sexta Bola de Ouro – 2018 – e os salários estavam defasados – Neymar ganhava U$14,5 milhões e hoje recebe U$70,5 milhões anuais, enquanto Marta recebia U$400 mil e hoje U$41mil anuais.

Foto: Reprodução

No dia seguinte ao Enem, o presidente Bolsonaro criticou a questão dizendo que não deve existir a comparação porque o futebol feminino “ainda não é uma realidade”. Mas ele está errado e esse debate precisa ser aprofundado.

O futebol de mulheres é sim uma realidade. Sobrevive a base de muita luta e resistência, mas a cada dia se mostra mais consolidado. O futebol feminino é um caminho sem volta! O chefe do poder executivo deveria, inclusive, incentivar a valorização e o crescimento da modalidade, mas não podemos esperar muito daquele ocupa tal cadeira.

Vivemos um 2020 de muitos avanços no futebol de mulheres, mesmo com toda a precariedade ampliada pela pandemia da Covid-19. Tivemos um Campeonato Brasileiro transmitido em televisão aberta, várias finais de estaduais também com transmissão televisiva e grandes palcos recebendo partidas. Tivemos Aline Pellegrino e Duda Luizelli ocupando os cargos de comando e organização da modalidade na CBF. Temos visto uma demanda cada vez maior de torcedores nas redes sociais, conseguindo colocar o futebol feminino nos primeiros lugares dos assuntos mais comentados do Twitter em diversas oportunidades.

O futebol feminino é uma realidade, quer você queria ou não. É claro que ainda há muito a se conquistar, e por isso seguimos cobrando e incentivando, mas negar a modalidade já é inimaginável.

Outro ponto que precisa de reflexão é a comparação que a questão do Enem faz. Para mim, essa relação entre os futebóis não deve ser feita, mas aqui cabem alguns pontos de análise. O texto da questão trazia um comparativo salarial para mera ilustração da disparidade de gênero, e nesse quesito ela é relevante, mas precisamos pensar em todo um universo que resulta nessa diferenciação.

O primeiro argumento é sempre o mercado, e ele não pode ser desclassificado. O mercado econômico do futebol feminino é infinitamente inferior ao do futebol masculino. Os patrocínios são poucos e de baixo valor, não há mercado de venda de atleta, não há arrecadação com produtos (ou quando tem é muito baixa), não há cota televisiva, não há renda de público e não há mecenas investindo milhões/bilhões para que ele aconteça. Mas para tudo isso existe uma explicação.

Foro: Bruno Cantini / Atlético

A primeira é histórica. As trajetórias das modalidades são completamente diferentes. Enquanto o futebol masculino se desenvolvia, popularizava, profissionalizava e criava um mercado econômico ao seu redor, as mulheres eram proibidas de jogar bola no Brasil. Com isso, além da interferência no desenvolvimento físico de atletas ou possíveis atletas, tivemos também uma defasagem na estrutura da modalidade.

Outro ponto é a questão cultural. Com toda essa caminhada do futebol, ele foi, cada vez mais, entendido e assimilado socialmente como um espaço exclusivamente masculino, mais do que isso, um espaço da cisheteronormatividade, pois tudo que foge dessa lógica é rechaçado (homossexualidade, transgeneridades e claro, o gênero feminino). Nossa sociedade embasada em valores patriarcais tem grande dificuldade de assimilar as mudanças de estrutura de gênero, e isso inclui o futebol. É por isso que mulheres que praticam ainda são taxadas sob a perspectiva da sexualidade, sendo sempre colocadas como lésbicas, independente da veracidade – e como se isso fosse relevante para a sua profissão!

Apesar de todas essas diferenças entre as modalidades, a diferença salarial ainda é um problema, assim como os patrocínios às grandes atletas. Na Copa do Mundo da França, em 2019, Marta protestou cobrando igualde de gênero dentro de campo. E essa disparidade não é exclusividade brasileira não. A seleção norueguesa ficou sem Ada Hegerberg, vencedora do Bola de Ouro do ano anterior. A atleta havia comunicado dois anos antes que não defenderia a seleção se sua federação não igualasse as condições entre o futebol feminino e masculino.

Foto: Reprodução / Go Equal

É por tudo isso que o futebol de mulheres é resistência. Temos uma seleção sete vezes campeã da Copa América, com três títulos olímpicos e tantas outras conquistas sem nenhum tipo de investimento. Temos Marta, Formiga, Cris, Michael Jackson, Sissi e tantas outras gigantes que colocaram seu nome na história do futebol brasileiro. Temos tanto, mesmo tendo tão pouco! Precisamos sim de investimento, de visibilidade e de incentivo para que a modalidade cresça cada dia mais. Precisamos que clubes entendam como oportunidade e não como obrigação. Precisamos de um calendário cada vez mais desenvolvido. Precisamos de fomento para base. E, para além de tudo isso, precisamos do combate ao machismo, ao patriarcado, precisamos das lutas feministas para a conquista de uma equidade de direitos, inclusive salariais.

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