41 anos depois: o que mudou?

*Escrito por Betania Carvalho e Jeanne Moreira

No último dia 5, mesmo após inúmeras manifestações negativas de grande parte da torcida, o Atlético anunciou a contratação do treinador Cuca por duas temporadas. “Estamos muito felizes com a chegada do Cuca. Vamos, juntos, construir uma trajetória de vitórias”, disse o presidente Sérgio Coelho.

A contratação não foi vista positivamente e houve uma grande manifestação nas redes sociais através da hashtag #CucaNão. O motivo dessa manifestação é um velho conhecido das mulheres: uma condenação por crime sexual.

Em 1987, quando jogava pelo Grêmio (RS), o então jogador Cuca foi acusado de participar de um estupro coletivo de uma garota de 13 anos. Em 1989, houve de fato a condenação a respeito do ocorrido, entretanto, nem Cuca ou qualquer um dos outros jogadores envolvidos cumpriram a pena pela qual foram sentenciados. Por fim, após longos anos, em 2004 o crime prescreveu, ou seja: em razão do decurso do tempo, o Estado perdeu o direito de fazê-los cumprir a pena.

E assim terminou o caso de um crime de violência sexual, cometido por quatro jogadores de um time com expressividade, exercendo seus poderes e masculinidades abusivas sobre uma menina. O futuro de Cuca — de quem tratamos aqui — todos sabemos: seguiu normalmente sua vida no futebol e até hoje é contratado para comandar grandes times da “elite” do futebol, inclusive com uma passagem de grandes feitos pelo Galo.

Após a repercussão extremamente negativa de um possível retorno, Cuca se manifestou em entrevista:

Venho neste momento falar de uma coisa que me incomoda muito, porque há 34 anos houve um episódio comigo. Essas coisas aconteceram há 34 anos e hoje elas estão vindo como se tivessem acontecido hoje e eu fosse condenado e culpado. Para resumir: eu não tenho culpa nenhuma de nada, nunca levantei um dedo indevidamente ou inadequadamente para alguma mulher.

O pronunciamento do técnico surpreendeu pelas negativas de culpa e de autoria, principalmente por sabermos que a condenação e a sentença aconteceram. Além disso, o técnico se utilizou de figuras femininas da sua família como “prova” de inocência. 

Diante disso, nos cabem algumas reflexões: tanto tempo depois do crime, queríamos exatamente o quê? Obviamente, não queremos seguir o instinto moralista e punitivista de um cárcere, até porque a prisão não muda o ocorrido e nem sacia o sentimento de justiça que nos paira na garganta. O que gostaríamos de ver também não era a ruína de um homem da mesma forma que sofrem as mulheres, em sua maioria, após serem sexualmente violentadas e condenadas a um papel de sofrimento inimaginável. 

Esperávamos do treinador, no mínimo, uma demonstração de respeito às vítimas de violência sexual. Uma demonstração de arrependimento, ainda que implícita, pela conduta grave que foi cometida por ele e seus companheiros. Talvez fosse melhor o silêncio de Cuca, pois 41 anos aparentemente não serviram para que ele pudesse entender o quão grave foi o crime que cometeu, e que ter família não exime criminosos sexuais das violências que cometem. Queríamos nós, mulheres, que fosse assim. Estaríamos livres de sermos vítimas. 

Fonte: Ana Cossermelli/SAÚDE é Vital

Após 41 anos, mudou a forma como parte da sociedade enxerga que mulheres devem ser tratadas, o respeito que deve haver sobre seus corpos e suas dignidades sexuais. Mas, da mesma forma, não mudou a visão que muitos têm acerca da ação de homens sobre esses mesmos corpos femininos e a (ir)responsabilização de suas atitudes, tanto tempo depois ainda vistos como garotos sem noção da amplitude dos seus atos e suas consequências. 

Mudou nossa cobrança, enquanto mulheres, por mais respeito, por nós e nossas iguais. Mas ainda paira a união entre os autores dos crimes e seus iguais, enquanto homens em posições de diretoria e comando, em que a mea culpa sequer é necessária, e o punitivismo que vigora sobre os crimes de natureza sexual praticados contra mulheres é além da conta. Sorte dos réus é que em tais crimes que as mulheres não são vistas como propriedades de cunho patrimonial, pois a visão da necessidade dessa punição seria completamente diferente. 

Fica, portanto, em grande parte das torcedoras, outra mágoa a ser acumulada pela visão que o clube têm sobre suas opiniões. Pondera também a paixão pelo clube, o fanatismo do futebol, gatilho de ver o que fez quem o comanda e todas as consequências (ou a falta de). Não há resposta correta, é compreensível a atitude de quem deixa de acompanhar para não cutucar feridas pessoais, assim como quem quer deixar essa ferida de lado, no passado, e preza pelo entretenimento, amor ao clube e prováveis bons momentos que o time pode proporcionar. 

A única máxima que fica e que não podemos deixar de ressaltar: mulheres precisam ser respeitadas, em suas vontades, seus corpos e seus traumas. As feridas de violências contra mulheres são coletivas e devem ser tratadas dessa maneira, com um compromisso de todos para que casos assim não fiquem décadas sem discussões, ou responsabilizações.

E no meio de tudo isso, paira o silêncio doloroso e conivente do nosso time, que até hoje acredita que futebol é um tema isolado do restante da sociedade, onde não devem existir discussões extra-campo, e enxerga as suas torcedoras como meros troféus na arquibancada, contando apenas com nosso silêncio.

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