Mês do Orgulho: memória, luta, identidade e visibilidade!

*Escrito por Bárbara Mendes e Renata Lemos

Junho é mundialmente celebrado como o mês do orgulho LGBTI+. Isso se deve a uma série de levantes ocorridos em 1969, em Nova York, nos EUA, em um bar denominado “Stonewall Inn.” No dia 28 de junho daquele ano, aconteceu o primeiro protesto que se contrapunha às violências policiais recorrentes. Essas ondas de ataques tinham como alvo os frequentadores do estabelecimento, majoritariamente jovens LGBTI+. Esse movimento ficou conhecido como Revolta de Stonewall e o seu primeiro dia tornou-se um marco para os movimentos que lutam pela diversidade sexual e de gênero em todo o mundo. 

Foto por 42 North em Pexels.com

Alguém poderia interrogar sobre o motivo das violências das forças estatais contra aquelas pessoas e a resposta é, infelizmente, a que se estende até os dias atuais: elas eram agredidas por sustentarem rupturas com as normas vigentes à época, que podem ser condensadas no que entendemos por cisheteronormatividade. Vale lembrar que este ano a revolta de Stonewall completa 52 anos e a resistência ainda se faz necessária cotidianamente. Isso porque essas normas, que excluem as pessoas LGBTI+, foram se atualizando ao longo do tempo, legitimando suas estratégias de minar possibilidades de existências plurais.

Mas afinal, também poderia ser questionado, o porquê do orgulho. E cabe mencionar que o orgulho LGBTI+ diz respeito justamente às lutas e resistências coletivas, mas também carrega uma dimensão do reconhecimento de si. Esse orgulho de se perceber como uma pessoa complexa e não limitada pelas perspectivas estigmatizantes a partir das quais elas são retratadas ainda nos dias atuais. Assim passa pelo orgulho de ser quem se é, apesar de toda uma lógica social que insiste em silenciar, diminuir, menosprezar e aniquilar cotidianamente e por tanto tempo essas vivências. É o orgulho de ser, de se perceber parte de algo maior que é fundamentalmente mobilizado pelas lutas políticas. 

Infelizmente, apesar de algumas conquistas de direitos, às pessoas LGBTI+ seguem a designação de uma sub-humanidade. É uma precariedade que se forja no cotidiano, impedindo acessos/oportunidades equânimes e, até mesmo, a existência sem conformações ao que as normas determinam. Não bastasse toda essa conjuntura, diversas violências seguem sendo legitimadas contra essa população. Em alguns ambientes, inclusive, construídas de forma estratégica, a fim de manter uma determinada ordem que não contempla a todes. 

Foto por Anna Shvets em Pexels.com

No caso do Brasil, isso se complexifica à medida que sob a famigerada democracia, se empreende um projeto político de extrema direita e que elenca pautas das agendas ultraconservadoras. Tudo isso condensado, se é que podemos falar assim, na figura de um ocupante do mais alto cargo executivo da federação que brada aos quatro ventos o seu “orgulho de ser homofóbico”. Mas o que poderíamos esperar de um país cujos avanços políticos dependem de ações promovidas pelo poder judiciário? Afinal, praticamente todas as conquistas de direitos da população LGBTI+ partiram de matérias do Supremo Tribunal Federal. As poucas ações que foram construídas pelo executivo em âmbito nacional não se mantiveram por muito tempo, dada toda essa situação de retrocessos. A lógica cisheteropatriarcal é tão arraigada em nossa sociedade que qualquer pequeno avanço rumo à equidade parece se tornar alvo direto de reações. Lembrando que aqui a gente resolveu falar de construções políticas que pautam o gênero e sexualidade, mas as subjetividades não são limitadas a este âmbito. Nós somos atravessades por diversos marcadores sociais e como eles se articulam a estes, supracitados, varia na vida de cada pessoa, produzindo assim efeitos também mutáveis.

Pensando ainda no Brasil, podemos acessar o quanto alguns estigmas e preconceitos são sedimentados como elementos culturais, difundindo práticas LGBTIfóbicas em vários âmbitos das nossas vidas. Como aqui falamos sobre futebol, não deixaríamos de trazer a “Paixão Nacional” para o debate. E já começamos com uma pergunta: que nação é essa, tendo em vista que não há uma inclusão ou democratização dessa modalidade no contexto brasileiro? E lembrando que essa exclusão passa por essas categorias de gênero e sexualidade, posto que o futebol segue como um reduto da cisheteromasculinidade.  

Foto por Brett Sayles em Pexels.com

Mas um fato curioso é que hoje a gente pode abrir as páginas dos clubes brasileiros, quiçá, até mesmo, da própria seleção e lá estarão imagens incríveis que ressaltam o quanto o futebol é para todes. Garantimos! Porque o mês do orgulho é também uma forma de fingir que somos todos pró-diversidade. Porque postar uma imagem parece sanar a  culpa de quem perpetua preconceitos e ódios por aí. Mas vale perguntar quantas ações foram produzidas nesse contexto para mitigar as desigualdades postas para as pessoas LGBTI+? Quais medidas foram tomadas para os membros dessa coletividade pudessem participar do mundo futebolístico em seus diversos âmbitos? Quantas ONGs ou coletivos LGBTI+ foram apoiados pelos clubes? Quantas emendas ou ações de federações foram promovidas em torno de coibir práticas LGBTIfóbicas nos estádios? Quais medidas educacionais são postas nesse contexto para que quem atua nas múltiplas áreas que o futebol oferece, saiba coexistir e respeitar as diversidades? Enfim… ficaríamos aqui elencando questões mil. Porque a realidade passa por um futebol que hostiliza o adversário chamando-o de gay, como se homossexualidade fosse xingamento; por uma fetichização das lesbianidades no futebol masculino e estigmatização – proibição também – no caso do futebol feminino; pelo ódio às travestis e transexuais a quem é vetado o direito à participação; pelo ódio ao número 24, que ainda é o grande tabu da seleção canarinho e também não é usada em diversos times, como o Atlético, por exemplo; passa pela bissexualidade ser tão invisível que o B parece ser de bola; etc…etc… etc… . Mas só por hoje, só pelo dia 28 de junho, a “Pátria de Chuteiras” finge ser acolhedora a todo mundo. E a torcida finge acreditar tentando elencar o seu clube como o menos LGBTIfóbico do momento.  

E sabemos que é complicado, no dia do orgulho termos que evocar tantas dores. Mas ainda hoje, em pleno 2021, precisamos marcar que a (r)existência dessas pessoas é feita de muitas lutas. Cotidianas! E que pouco contam com quem se enquadra nas normas como reais alidades. É importante celebrar o mês de junho, em especial o dia 28! É importante comemorar a vida daqueles que lutaram e que seguem lutando para que não seja possível nenhum retrocesso nessas duras conquistas. E é fundamental e urgente marcar todo e qualquer espaço, dando visibilidade para as causas que buscam a equidade de direitos e que lutam pelo direito às vidas, em toda a sua diversidade de ser. Mas é fundamental que isso transcenda junho e seja feito diariamente! 

Seguimos orgulhoses! ❤

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