Visibilidade lésbica no futebol

Eu me nomeei “lésbica” porque quero me tornar visível para outras lésbicas negras. Eu me nomeei “lésbica” porque não concordo com a heterossexualidade predatória e institucionalizada. Eu me nomeei lésbica porque quero estar com outras mulheres (e elas não precisam se nomear “lésbicas”). Eu me nomeei “lésbica” porque é parte da minha visão. Eu me nomeei lésbica porque me identificar como mulher me manteve sã.

(Cheryl Clarke, “New Notes on Lesbianism”, 1983, tradução livre)**


Foto: Paula Rodrigues/Ponte Jornalismo

Agosto é o mês da visibilidade lésbica e marca duas datas especiais. A primeira delas é o dia 19 de agosto, considerado o Dia do Orgulho Lésbico, em memória da ocupação do Ferro’s Bar, em 1983, por um grupo de mulheres lésbicas, após uma série de abusos e preconceitos que vinham sofrendo no estabelecimento. Já a segunda é o dia 29 de agosto, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. A comemoração de hoje faz referência à realização do 1º Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), numa marcação e ruptura com o apagamento de mulheres lésbicas nos movimentos LGBTI+ e feminista.

Cabe destacar, entretanto, que não é só dentro dos movimentos sociais que há uma invisibilização das experiências lésbicas. Isso acontece, infleizmente, em diversos contextos e, no caso do futebol, é importante ressaltar esse apagamento, principalmente na modalidade praticada por mulheres. Nestes espaços, as lesbianidades são reprimidas e/ou fetichizadas, num pânico moral, que sustenta a heterossexualidade compulsória.

Muito conceito num domingão, né?! Tentarei dizer de outra forma…

As mulheres que se relacionam afetivo-sexualmente com outras mulheres, colocam em xeque uma série de normas sociais. Entre elas, a máxima que vincula corpo, identificação e desejo de forma unívoca, a saber, vagina, logo, mulher, logo atração por homens. Ou seja, sem admitir a pluralidade de experiências, que constituem nossa realidade. O pânico começa à medida em que as lesbianidades rompem com a ideação de que desejo seria puramente heterossexual. E num ambiente constituído por mulheres, juntas, em uma prática que envolve contato físico constante, sem contar o uso compartilhado de espaços, isso fica ainda mais complexo (!). 

Vou abrir um parêntese só para negritar que a norma mencionada acima é extremamente falha. Genitália não determina gênero, assim como gênero não determina orientação. Nós somos imensamente plurais! Então, tendo isso em vista, não há garantias sobre como nos identificaremos ou com quem/ se nos relacionaremos tanto de forma afetiva quanto sexual. Principalmente estas, que são dadas pelo simples olhar! São muitas definições postas em um ser tão pequeno e que nem pode se manifestar por si, no momento desta atribuição arbitrária. Então, criem possibilidades de liberdade e igualdade para as pessoas, não expectativas! Ok?!  

Bom, dito isso, voltemos às elaborações sobre as normas de gênero. O menor sinal de ruptura é tido como desvio e, assim, veementemente rechaçado por quem se interessa em exercer/manter o controle sobre os corpos das mulheres – no caso do foco do texto, as mulheres que jogam futebol. Não vou entrar no mérito da discussão de gênero em si, pois vários textos já foram produzidos acerca dessa questão no Galo Delas, mas é importante lembrar o quanto o esporte está associado às masculinidades no contexto brasileiro. E, deste modo, às mulheres são concedidas possibilidades de participação, desde que se adequem às regulações, que as recolocariam numa posição de adorno e objeto que embeleza o espetáculo. Lembrando que o foco é voltado para aqueles que seriam os reais protagonistas: os homens cis, brancos e heterossexuais. Conforme as mulheres disputam o contexto do futebol, apresentam outro enquadre possível da prática futebolística, que recoloca também o gênero. Ao se relacionarem com outras mulheres, além de atualizar as subjetividades, atualizam também as relações possíveis dentro e fora do contexto futebolístico.

É importante trazer estas marcações sociais para evidenciar as assimetrias construídas em torno do gênero e da sexualidade, naquilo que é tido, supostamente, como apenas esporte. Sob essa roupagem de prática esportiva, outras significações foram e seguem sendo articuladas ao longo da história: de modernidade, jovialidade, habilidade, nação, (do mito da) democracia racial e, por que não, da atualização e manutenção de uma lógica cis-heteropatriarcal.

As mulheres que se atrevem a jogar futebol, deste modo, acabam por negociar com o que é estabelecido sobre gênero e sexualidade, de cara. Não obstante, conforme mencionado, caso sejam lésbicas, evidenciam outras possibilidades de existência, para as quais os clubes não parecem estar preparados.

No futebol, conforme menciona Mariane da Silva Pisane, em seu texto “Lesbianidade em campo: afeto e desejo entre jogadoras de futebol brasileiras”, há um controle exacerbado das condutas femininas para, inclusive, enquadrá-las nas possibilidades de participação, também dentro das quatro linhas. E assim, mulheres jogadoras e lésbicas rompem com as expectativas dos clubes, conforme entendem o futebol como um espaço de formação de novas alianças e novos relacionamentos, inclusive amorosos.

Constituído por um corpo técnico majoritariamente cismasculino e heterossexual, essa questão parece trazer à tona fantasmas em torno da sexualidade feminina – que aparentemente não pode existir se não para satisfazer os desejos cismasculinos heterossexuais. Além disso, desmistifica as mulheridades, em sua pluralidade e a suposta dependencia que fundamentaria as identidades femininas, ao colocarem posicionamentos e práticas que pautam a liberdade dos usos dos corpos. Tudo isso funciona como contraponto em um contexto em que a vigilância sobre as pessoas, de forma geral, é normalizado e normatizado. No caso das mulheres, essa patrulha é exercida de forma mais intensa, numa tentativa de preservação do que se tece como desejável por conta do gênero e da sexualidade, apesar da prática esportiva. E aqui, vale mencionar, que gênero e sexualidade são as chaves analíticas pautadas, mas elas não se desvinculam de outras categorias que operam na construção de assimetrias sociais, como, por exemplo, classe e raça. E à medida em que mais elementos são incorporados nas análises, há uma complexificação e acentuação do que fora mencionado.

Talvez por tocar numa questão tão tensa aos olhos da “gestão” do futebol, esse tema ainda seja pouco abordado, inclusive academicamente – tanto no que tange as vivências das atletas, quanto das torcedoras, que sofrem uma série de violências para serem reenquadradas nos escopos normativos. Acredito, entretanto, que nossos olhares deveriam seguir as interlocutoras de Mariane, que apontam o futebol como uma possibilidade de resistência e de ruptura com alguns ciclos de violência e opressão, vivenciados em outros contextos sociais. Para tanto, ele deve se tornar mais democrático em todos os seus âmbitos (desde direção, comissão técnica, arbitragem, federações e demais órgãos reguladores, etc.), a fim de se constituir segurança e referência para que existências plurais possam ser pautadas e realmente incluídas.

O pânico da sexualidade das mulheres não pode mais ser a chave para lidar com jogadoras de futebol, principalmente as mais jovens e em formação. E só assim, o contexto futebolístico pode ser pensado como uma forma segura para as lesbianidades emergirem. E não só, a partir do momento em que essa possibilidade é acolhida, as multidões femininas podem se sentir mais confiantes também, bem como as não binariedades e por aí vai! Vide a seleção canadense, campeã do mundial de futebol!

O desejo é que possamos construir um ambiente onde as relações entre mulheres possam ser pensadas para além da necessidade de competição entre si, imposta pela lógica do cis-heteropatriarcado, e que muito pode dificultar a formação de uma equipe coesa.

E assim, a diversidade de ser mulher e de vivências afetivo-amorosas e sexuais devem não só ser pautadas, como também celebradas, cotidianamente. Porque a sexualidade é parte do que nos constitui como sujeitos e, ainda que se nomeie, ela é plural e transcende qualquer modelo que se possa tentar impor. E ela vai perpassar o contexto futebolístico, independentemente de como seja construída. E, deste modo, não cabe mais, com tantos anos de luta e de discussões pautadas pelas mulheres lésbicas, que suas vivências sejam elencadas de forma estigmatizante e deslegitimadora. As mulheres que jogam futebol não se reduzem à sua sexualidade, mas esse elemento fundamental de suas vidas não pode ser o tabu, o não-dito, o interdito. Isso só leva a mais apagamentos e mais violência. Principalmente para aquelas atletas que fazem parte das dissidências sexuais.

A manutenção da postura vigente – em que mulheres lésbicas ainda precisam se omitir, ou têm receio de mencionar suas esposas e namoradas, para se manter em times, enquanto vangloriamos os jogadores que “pegam” essa ou aquela mulher; em que as feminilidades das jogadoras seja pouco reconhecida conforme se sabe da sua sexualidade, restringindo patrocínios ou fontes de renda; em que elas são obrigadas a se “manter no [paradoxo do] armário”, porque seu corpo e suas relações são públicas a ponto de poderem ser controladas pelos seus empregadores; em que não há o reconhecimento de mulheres lésbicas como mães e portanto se nega direitos a essas mulheres, para mencionar alguns preconceitos -, nos deixa, cada dia mais longe de formas éticas e democráticas de construção do futebol, que ampliem as possibilidades de existência e de construção de subjetividades. Principalmente para quem ocupa a parte operacional dessa lógica: as jogadoras.


Notas:

* Importante mencionar que apesar de o futebol, no contexto brasileiro, ser composto majoritariamente de pessoas cisgêneras, não ignoramos que as experiências das lesbianidades escapam aos binarismos. E, além disso, cabe ressaltar também que esse texto é uma tentativa de condensar uma discussão ampla demais então, nos colocamos abertas a pensar conjuntamente sobre o que fora tratado. Por fim, é fundamental negritar que tratamos, como chave da construção do texto, os gêneros e sexualidades, sem ignorar que os demais marcadores sociais das diferenças são de suma importância para qualquer análise que se possa tecer. Esta foi a forma que encontramos de lembrar essa data tão importante, em que a liberdade pode ser ressignificada para muitas de nós!

** Para acessar o texto completo: https://mobile.twitter.com/UgFeministForum/status/1253687244482805762/photo/2


Referência:

Pisani, Mariane da Silva. Lesbianidades em campo: afetos e desejos entre jogadoras de futebol brasileiras. In: Gustavo Santa Roza Saggese; Marisol Marini; Rocío Alonso Lorenzo; Júlio Assis Simões; Cristina Donza Cancela.. (Org.). Marcadores sociais da diferença: gênero, sexualidade, raça e classe em perspectiva antropológica. 1ªed. São Paulo: Terceiro Nome. Editora Gramma,, 2018, v. 1, p. 1-351.

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