Aquele futebol que você não viu…

Estamos em 2021 e algumas coisas seguem iguais no futebol de mulheres de Minas Gerais. Por longos anos, a categoria foi ignorada pela imprensa e por grande parte da sociedade, tornando-a invisível. Com aproximadamente 40 anos de proibição – o que não significa sem a prática – o futebol de mulheres se tornou um campo quase inexistente aos olhos da população.

Em Minas Gerais, após a regulamentação em 1983, as mulheres praticaram o futebol formando times tradicionais e vestindo camisas de grandes clubes do cenário nacional. A pergunta é: quando foi que você soube da existência do time feminino do seu clube do coração? Quando foi que você, atleticano/a, acompanhou as mulheres com a camisa do Galo em todos esses anos?

Não, a resposta não é uma ‘culpa’ sua. A questão é que quando não se tem divulgação, não se tem registro, não se tem exposição de alguma coisa, também não se tem conhecimento e nem memória. E a memória é fundamental para a construção cultural, política e social de um elemento. Quase como se aquilo que não é lembrado não tivesse existido.

E aí chegamos na Era da Obrigatoriedade, quando as instituições reguladoras do futebol passaram a exigir a manutenção de equipes femininas para a disputa das equipes masculinas em algumas competições. No começo, imaginou-se que isso ia impulsionar a categoria, mas com o tempo percebemos que diversos clubes a trataram como mera obrigação mesmo, sem entender como oportunidade nem mesmo na lógica neoliberal que impulsiona o nosso futebol.

Em Minas Gerais não foi diferente. Embates dentro da FMF tornaram o campeonato regional “profissional”. Expulsaram os clubes amadores e exigiram taxas e inscrições que impediram que diversos clubes conseguissem participar. Assistimos isso se transformando desde 2019, chegando a apenas quatro equipes na disputa do ano seguinte, com parcerias sendo feitas para que se pudesse sobreviver às exigências da Federação.

Outro embate que assistimos foi a respeito da transmissão. Clubes exigiam que a responsabilidade fossem deles, para que pudessem usar seus canais no YouTube como transmissores. A FMF tentou puxar a corda para o outro lado, querendo que a competição de 2020 fosse transmitida pela sua televisão, o que não aconteceu.

O problema é que os clubes não usaram do seu direito. Em 2020, Atlético e Cruzeiro transmitiram as partidas em que foram mandantes em suas TVs institucionais. O Ipatinga/Ideal conseguiu uma parceria com um canal do YouTube para que exibissem seus jogos. Mas o América não o fez. Assim, o jogo entre Galo e América, por exemplo, só foi assistido por quem estava lá, trabalhando, inclusive quem aqui vos escreve.

Em 2021 o problema continua, na verdade ele piora! Antes mesmo da competição começar, a jornalista Eduarda Gonçalves, do Tempo, noticiou que a FMF tentava negociar a transmissão em canais abertos, o que não se concretizou. Assim, seguimos com a mesma formatação do ano anterior, mas aparentemente com menos interesse de clubes com estrutura para tal e com mais times sem condições para fazer.

No último fim de semana, a 4ª rodada do Campeonato Mineiro (mandos de campo de América, Social e Cruzeiro) não teve nenhuma das três partidas transmitidas. NENHUMA! Sabemos que a situação de diversos clubes do futebol feminino é precária e não os responsabilizamos por não fazerem a transmissão. O problema é que a FMF fecha seus olhos para a categoria. Diz que não tem condições para a transmissão em sua televisão (mudou de ideia em relação ao ano passado), mesmo transmitindo o Módulo II do Campeonato Mineiro Masculino.

A realidade é que o descaso com o futebol de mulheres não parte só dos clubes. A agência reguladora que deveria dar suporte, não o faz, não torna a competição atrativa e apenas “empurra com a barriga” a categoria. Como esperar que marcas se interessem por patrocinar um produto que não é visto?

Além disso, outros problemas aparecem. Como disse, em 2020 apenas quem trabalhava numa partida sem transmissão pode contar o que aconteceu, já que tínhamos restrições de público devido à pandemia de Covid-19. Não, a pandemia não acabou, mas estamos passando por um momento de maior flexibilização e que tem escancarado a verdadeira visão da FMF em relação ao futebol de mulheres.

A FMF elaborou um protocolo de retorno do futebol mineiro, mas ele exclui todas as categorias não profissionais. Isso significa que campeonatos amadores ou jogos de base não podem ter público. Aí eu te lembro que a mesma excluiu os times femininos amadores de sua competição (lembra que falei ali ne?). Mas, por ironia do destino – cof cof – o futebol feminino não se enquadra dentro do protocolo. Ele não é tido como profissional pela instituição que obriga que os times sejam profissionais.

E é assim que seguimos invisibilizando as mulheres no futebol. Sem que o público possa estar presente e sem que possa assistir aos jogos de sua casa. Nós seguimos daqui tentando reverter essa situação – dentro de uma possibilidade de trabalho voluntário –, assim como algumas outras mídias alternativas. Enquanto isso, assistimos ao descaso e sofremos dificuldades quando o jogo se torna “importante” e todos os grandes veículos da mídia tradicional (e a Federação) lembram da existência da categoria, em um palco de gigantes.

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