Honramos o nome de [quais] minas?

Há muitas controversas histórias sobre a origem do famigerado Dia Internacional das Mulheres. Alguns atribuem a um incêndio criminoso e outros, refutando essa primeira versão, ressaltam o quanto a data foi desvinculada dos movimentos de mulheres trabalhadoras da URSS.  Independentemente da multiplicidade de histórias que cercam o dia, é inegável um eixo comum entre elas: as protagonistas são mulheres trabalhadoras. E, ainda que haja esse nó, o elemento operário parece se perder em celebrações fúteis, bombons e flores. Vale lembrar que o oitavo dia do mês de março é de luta. 

Isso marca o quanto é fácil cooptar questões sociais importantes e tornar cada uma delas extremamente vendáveis. Essa elasticidade da lógica capitalista faz com que no dia de hoje a briga no contexto futebolístico seja por ações vazias, com timing ideal, sem propostas efetivas. Quais mudanças reais na vida das mulheres, principalmente trabalhadoras, seu time proporciona? Fica a reflexão, de suma importância, que transcende o marketing e que é papo para um outro dia. Talvez amanhã, após a euforia da lembrança de alguns minutos. 

Nós, que já exaltamos a resistência de mulheres no futebol, em tempos de proibição, hoje, tomadas pelo elemento central da data “comemorativa”, resolvemos lembrar que o futebol também é feito por mulheres, mulheres trabalhadoras. Assim, cabe listar uma série de questões que se fazem invisíveis quando pensamos nessa modalidade [mais que] esportiva. 

O primeiro ponto, que parece bastante singelo, acaba sendo simbólico em uma lógica que não atribui às mulheridades determinados espaços e funções. Sempre que tentamos mencionar as atletas de futebol, algum corretor parece incomodado com a flexão de gênero. E há uma insistência em inserir “os”, como se atletas tivessem um gênero pré-estabelecido e imutável. Isso acontece também com “as jogadoras e árbitras” entre outras limitações impostas na linguagem às mulheres na prática esportiva.

Isso pode parecer bastante vago ou de pouca importância no cenário que se configura no futebol praticado por mulheres, mas nos cabe lembrar como essa modalidade foi e segue sendo construída no Brasil. Sem resistência, sem obrigatoriedade legal para a manutenção da prática pelos clubes, será que estaríamos construindo o Galo Delas com foco na atualidade do futebol, ou nosso olhar seria limitado às histórias não contadas, pela oficialidade da história, que ignora inclusive os futebóis? Então sim, nos parece fundamental que a possibilidade de falarmos em mulheres atuantes no futebol seja ampla e irrestrita, porque a invisibilização é recorrente. 

Outro ponto fundamental é: quantas mulheres temos atualmente na comissão técnica dos times? E quais os salários dessas mulheres comparados aos salários dos homens?  E na parte operacional, podemos comparar os ganhos das modalidades do futebol praticado por homens e por mulheres?

Além disso, quando falamos no futebol feminino quais são as mulheres que participam dessa prática? Quem são as excluídas dessa feminilidade própria do esporte? Por que ainda lidamos nesse contexto com lógicas de gênero tão essencialistas? Quantas mulheres trans e quantas travestis existem no futebol feminino brasileiro? Até quando esse [mais que] esporte será direcionado a essas mulheres que rompem com a cisgeneridade como forma de violência? 

Assim, num contexto em que mulheres a duras penas buscam equidade, uma vez que se baseia numa inclusão que parece até mesmo perversa, outras mulheres nem tem direito a participar, conforme gostariam e conforme as garantias inscritas nas legislações e regulações da prática. 

Quantas mulheres, ainda que maioria dentro das quatro linhas, ainda não são representadas quando falamos ou pensamos em discutir o gênero no futebol? Quando as interseccionalidades serão de fato pensadas nesse contexto como atravessamentos e não como uma série de critérios separados que se adicionam conforme uma pessoa ou outra entra em cena? As mulheres negras, as mulheres pobres, as mulheres mães, as mulheres lésbicas, mulheres trans (como mencionado anteriormente), mulheres com deficiência, entre outras, são lembradas e levadas em consideração nas discussões da modalidade? A quem serve apagar nossas diferenças em nome de uma categoria universalizante? 

Por fim, é importante lembrar de todas as trabalhadoras do futebol: atletas, jornalistas, árbitras, dirigentes, “olheiras”, secretárias, funcionárias da comissão técnica, da administração, da limpeza, etc. Todas aquelas que fazem cotidianamente a prática possível… Quantas delas carregam os sonhos de novas gerações por um futebol mais diverso e democrático?

Esse texto cheio de perguntas tem como objetivo chamar a atenção para os modos como a gestão do futebol de mulheres é produzida. Pensar nisso é importante, não só no dia 08.03, mas todos os dias do ano. É necessário tecer confrontações às lógicas de inclusão e do direito supostamente garantido, que se estrutura, muitas vezes, em torno da violências. A ideia é questionar como primeiro passo para construir rupturas e fugas dessa realidade que se apresenta, mas que não é a única possível. 

Seguimos na luta! 

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