Chega de apanhar – é a hora do futebol feminino

Por Petra Fantini

“Por mais que escutemos: ‘ah, mas vocês só reclamam’. Vamos reclamar. Até ver que as coisas estão funcionando”.

A declaração acima foi feita por Marta Silva, jogadora brasileira de futebol que dispensa apresentações, em uma entrevista ao globoesporte.com. Marta é uma dessas mulheres que te dá brilhos nos olhos, e foi por causa dela, Formiga e pensando nas milhares de outras mulheres do futebol que eu e minha dupla, Mariana Gonzaga, começamos nosso projeto de conclusão de curso no Jornalismo. Nele, procuramos contextualizar e desvendar, através de uma série de reportagens, como a mulher se relaciona com o futebol, seja na torcida, no gramado ou nos bastidores da comissão técnica.

E eu, assim como Marta, sou a favor de que a gente reclame. Reclame sempre, reclame alto, reclame até os ouvidos deles sangrarem e eles tenham que parar e perguntar “o que foi?!”.

Nós temos que falar porque, se por um lado Neymar acha que a alta altitude de La Paz configura “condições desumanas de jogo”, as seleções femininas jogaram a Copa do Mundo de 2015, no Canadá, em grama sintética, que provoca severas lesões – foi a primeira vez que o gramado foi usado em uma grande competição, ou seja, as atletas foram cobaias. Na época, a atacante americana Abby Wamb declarou:

“Não há dúvidas de que é uma questão de discriminação de gênero. Não há previsão de que nenhuma das Copas masculinas já planejadas tenham jogos com grama sintética”.

E não para por aí, pois além dos joelhos e pernas esfolados, a sensação térmica neste tipo de gramado pode chegar a 50° C, no limite do que é considerado seguro em práticas esportivas.

E isso porque estamos falando da elite do futebol feminino mundial. Quando chegamos ao futebol amador da periferia de Belo Horizonte, por exemplo, aprendemos que raramente uma atleta sequer consegue se promover no esporte. Sidney de Lima, técnico do ProInter, nos contou, durante a apuração do projeto, a dificuldade de conseguir investimento:

“A gente consegue incentivo para meninos de categoria de base, de 12 e 13 anos, a gente consegue rapidamente. Vou eu fazer o mesmo procedimento com o futebol feminino. Não consigo”.

O descaso se reflete também nas competições estaduais. O Campeonato Mineiro de Futebol Feminino, começou atrasado por uma questão básica: a falta de verba dos clubes. Enquanto isso, a Federação Mineira de Futebol (FMF) foi denunciada pelos altos gastos em politicagem, quando bancou um mega evento para 77 presidentes de ligas municipais e suas famílias em torno da promoção da candidatura do secretário geral da entidade, Adriano Aro, ao cargo de presidente. O atual presidente da FMF, o advogado Castellar Modesto Guimarães Neto, tem interesse de se candidatar a deputado estadual e busca o apoio do irmão de Adriano, o deputado federal Marcelo Aro (PHS-MG).

Vê-se então que o futebol feminino no Brasil não triunfa, pelo contrário, ele luta para sobreviver. E luta praticamente sozinho, por meio da força de vontade dos presidentes de clubes amadores que investem na proposta há muitos anos (o time feminino do ProInter existe desde a década de 1990), da comissão técnica que acredita na modalidade e principalmente das jogadoras.

É necessário que o sonho de milhares de mulheres não seja esquecido. Que a atleta do futebol de várzea tenha a oportunidade de ser apresentada para um olheiro ou um investidor e que não digam que o sonho dela não vale nada, porque não vende. É preciso que o Departamento de Futebol Feminino da CBF deixe de ser composto por homens desinteressados pela modalidade e que estão ali apenas em virtude de suas conexões políticas para sugar os poucos recursos disponíveis em seu próprio proveito.

Assim como deixou claro o manifesto em favor do futebol feminino, publicado pelo portal ~dibradoras, o futebol feminino vai parar de apanhar e vai começar a bater de frente. Após sua demissão, Emily Lima não se calou. Falou sobre os mandos e desmandos dentro da CBF, sobre a politicagem do órgão, a corrupção escancarada e naturalizada. Emily sabe muito bem que o seu projeto de jogo e seus resultados não tiveram nada a ver com a sua saída. Ela sabe que ser uma mulher não-influente, determinada a trabalhar e desenvolver a modalidade com seriedade e compromisso de longo prazo não a levariam longe na Seleção.

E, então, Emily foi demitida. Com a saída dela, cinco atletas medalhistas olímpicas declararam que não defenderão mais a camisa brasileira. Foi como se todas nós que acompanhamos a modalidade levássemos uma sacudida de realidade. Tiraram ela, a primeira mulher técnica da seleção brasileira de futebol feminino, antes mesmo de completar um ano de trabalho, antes mesmo de atuar em grande competições. Ela, que tinha a confiança e o apoio de todas as atletas e especialistas do futebol feminino.

Durante a elaboração do projeto, conversamos com muitas mulheres torcedoras, atletas e ex-atletas que se inspiravam na treinadora como um bom presságio para o futuro. Depois que a CBF fez o que sabe fazer melhor, isto é, ignorar as vontades de quem atua diretamente na modalidade, o sentimento geral tem sido de muita frustração. Ao mesmo tempo, ninguém está surpreso, nem mesmo Emily.

Mas, se eles acham que podem nos tratar com o desprezo de sempre, estão enganados. Dessa vez as mulheres se farão ouvir.

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Petra Fantini é atleticana e estudante de jornalismo pela UFMG.

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