Enfim, mulheres para o futebol de mulheres

O mês de setembro começou com um sopro de esperança para o futebol feminino no Brasil. A CBF anunciou mulheres no comando da modalidade, acontecimento inédito, por incrível que pareça. Duda Luizelli ocupou a coordenação da Seleção Feminina, cargo que estava vazio desde a saída de Marco Aurélio Cunha, há quatro meses, enquanto Aline Pellegrino assumiu um novo cargo criado, o de Coordenadora de Competições Femininas.

Apresentação de Duda Luizelli e Aline Pellegrino com o presidente da CBF Rogério Caboclo. Foto: CBF/Divulgação

Se você não acompanha muito o futebol de mulheres e não tem ideia do que eu estou falando, eu explico. A modalidade feminina tem alcançado novos voos desde de um direcionamento da FIFA pela valorização e desenvolvimento do futebol de mulheres. Foi a partir disso que a Conmebol resolveu criar a obrigatoriedade a todos os clubes que disputam suas competições masculinas em manter equipes femininas. Também foi seguindo esse direcionamento que a CBF passou a exigir das equipes que disputam a série A do Brasileiro masculino a criação e manutenção de times profissionais e de base femininos.

E o que a chegada de Duda e Pelle tem de tão especial? Eu respondo: elas!

Pelle é nossa eterna capita. Extremamente atuante na defesa da modalidade, como fazia em campo quando atuava na zaga da Seleção Brasileira, ela transformou o cenário paulista recente. Pelle tem se mostrado uma gigante na gestão do futebol de mulheres nos últimos anos. Depois de encerrar sua carreira como atleta, resolveu se dedicar à gestão do futebol com o anseio de mudanças do cenário brasileiro. E ela tem conseguido. À frente do departamento feminino da Federação Paulista de Futebol, Pelle conseguiu feitos excepcionais. Transformou o torneio paulista no mais disputado em todo o Brasil, transformou o trato com o futebol de mulheres com sua autonomia dentro da Federação. Se preocupou com a base, quase sempre esquecida, fazendo, inclusive, a primeira peneira feminina organizada pela federação, que reuniu mais de 400 atletas. E quem não se lembra da marcante final de 2019 com recorde de público, quase 29 mil pessoas nas arquibancadas assistindo Corinthians x São Paulo.

Aline Pellegrino é a grande responsável pelo o que o futebol de mulheres é hoje em São Paulo! Ela tem demonstrado total capacidade e qualificação para ocupar cargos ainda mais altos. E, não por menos, sua nomeação para a nova pasta da CBF foi tão comemorada. É mais do que representatividade, é qualidade! Pelle é uma mulher negra que tanto fez e continua fazendo pela modalidade. O anúncio de um cargo a nível nacional traz esperança. Esperança para quem deseja valorização ao futebol de mulheres. Esperança para quem, assim como nós, olhamos para o estado vizinho desejando nem que seja uma migalha do que eles conseguiram conquistar.

Aline Pellegrino – Imagem da internet

Em outra cadeira temos agora Duda Luizelli, outra gigante do futebol de mulheres aqui no Brasil. Como atleta, fez parte da primeira geração de jogadoras do Rio Grande do Sul, depois do fim da proibição, integrando a equipe principal do Internacional na década de 1980, aos 13 anos. Foi a primeira gaúcha a jogar na Europa, no início da década de 1990, quando ainda não era comum. Foi ela a responsável por reabrir o departamento de futebol feminino do Internacional, lá em 1996, quando, segundo ela, o futebol era “feito de homens, geridos por homens, com homens e para homens”. Desde 2017 estava ocupando a coordenação técnica do futebol feminino do Internacional.

Duda teve papel fundamental no futebol de mulheres no sul do país. Ela foi grande responsável pela difusão da modalidade. À frente do Inter, teve a expertise de entender a base, a formação da atleta, como fundamental. Ela já tinha esse trabalho de formação com uma escolinha de futebol fundada por ela e levou esse projeto, esse entendimento da necessidade do desenvolvimento de base, também para seu trabalho no colorado.

Duda Luizelli. Foto: Mariana Capra/Internacional

A chegada de duas gigantes para o comando do futebol de mulheres na CBF, somados ao trabalho de Pia Sundhage na Seleção principal, marca a ocupação de espaços, a representatividade. São mulheres ocupando espaços para mulheres. Mulheres que tem vivência, que tem experiência, que tem conhecimento das realidades da modalidade no Brasil. E o trabalho já começou mostrando a diferença. Pelle vai fazer um mapeamento das realidades do futebol de mulheres no Brasil e entender as especificidades de cada federação. Entender os momentos e as características de cada região é essencial para se criar essa aproximação da CBF e estabelecer novas estratégias de desenvolvimento do futebol feminino.

“Se daqui, seja lá o tempo que for, a gente olhar para trás e falar ‘meu , a modalidade aconteceu no Brasil’, se respeita as atletas, se respeita a modalidade eu vou estar extremamente feliz e vai ser, pronto, consegui o que eu queria.”(PELLEGRINO, 2015)

E é isso que desejamos para a Pelle, para o futebol de mulheres, que consigamos respeito à modalidade, respeito às atletas.

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