O futebol feminino atleticano em tempos de pandemia

O futebol feminino no Brasil e no mundo vive uma crescente e, com grande expectativa, o Galo Futebol Feminino estreou no Campeonato Brasileiro A2 na Arena Independência. A partida diante do Villa Nova/ES, no dia 14 de março, porém, ocorreu com os portões fechados para a massa. Os primeiros efeitos da pandemia do novo coronavírus já podiam ser sentidos com o silêncio nas arquibancadas durante aquele empate em 0 a 0, mas não sabíamos o que esperar parar os próximos dias, semanas e até mesmo meses.

Daniela Veiga / Atlético

Em entrevista ao Galo Delas, a volante Emily disse que, inicialmente, acreditava que seria algo passageiro:

“Para mim, [a pandemia] era somente algo passageiro e não muito grave, mas depois de alguns dias já marcaram uma reunião, em que foram passadas todas as instruções. Ficamos bastante apreensivas, sem saber ao certo como seria, como faríamos para manter o trabalho e, principalmente, o retorno.”

Essa reunião com comissão técnica e atletas ocorreu apenas três dias após o confronto contra o Villa Nova e foi quando receberam a notícia de que os jogos e treinamentos seriam suspensos, sem data para retorno. Diante dessa situação, algumas atletas voltaram para a cidade dos pais, como foi o caso da lateral-esquerda Ilana, que a família vive em São Félix do Xingu, no Pará. Ela nos contou que, desde o início, todos os cuidados foram tomados pela comissão técnica alvinegra:

“Na reunião que tivemos, já foram passadas recomendações sobre o COVID-19 e uma programação com os treinos diários que deveriam ser feitos. Logo em seguida, já foi criado um grupo no WhatsApp com os nutricionistas do Atlético e recebemos várias orientações sobre como seria esse processo.”

Durante a transmissão da Live do Galo Futebol Feminino, exibida dia 2 de julho, a coordenadora da modalidade, Nina Abreu, contou que o treinador Hoffmann pediu que todas as atletas treinassem no período de quarentena e assim elas fizeram. Inicialmente, as atletas entraram de licença e depois férias, mas receberam uma planilha de planejamento para os treinos e seguiram essa rotina em casa independente. “Cada uma treinou à parte, procurando manter o condicionamento, até mesmo para não perder o trabalho e prejudicar o grupo. Fomos muito conscientes nesse sentido” contou Emily. As atletas executavam os treinos e enviavam o feedback para o até então preparador físico, Guilherme Acácio.

Ilana explicou que, alguns dias antes das “férias” acabarem, a comissão técnica entrou em contato para avisar que os treinos aconteceriam remotamente todos os dias.

“Tínhamos um planejamento a ser seguido de trabalho de força, core, velocidade. Claro que não é a mesma realidade do dia a dia, mas nos ajudou muito. Todos os dias fazíamos o trabalho de força ou core online e tínhamos uma distância e tempo para correr. Alguns dias eram 5km, outros dias 8km e tinha dia que eram 12km.”

Os trabalhos de força foram feitos de forma adaptada, com exercícios que as atletas já conheciam e utilizando os recursos e o espaço que dispunham em casa, como por exemplo faixas elásticas, cabos de vassoura, garrafas de água de 10L ou latas de tinta para aumentar a carga. Diariamente, pela manhã, eram agendadas chamadas de vídeo de cerca de 3 horas e meia e a comissão podia acompanhar a execução dos exercícios e postura delas através de um aplicativo.

A tecnologia foi uma grande aliada dos cuidados em casa. As jogadoras recebiam animações com movimentações específicas que elas deveriam executar. O trabalho aeróbico também era controlado por aplicativo, através do qual elas tiravam prints da tela mostrando a distância percorrida – cada dia uma diferente. Aos sábados, os treinos de corrida eram maiores e, quando Ilana estava na casa dos pais, o preparador deu a opção de ela treinar remo no rio Xingu e corrida nas trilhas.

O contato com a comissão técnica durante a quarentena era diário. Eram coletados dados para monitoramento através do feedback das próprias atletas sobre o quanto estavam cansadas, doloridas ou estressadas, sobre a qualidade do sono, da alimentação e sobre o ciclo menstrual – muito importante, inclusive para o planejamento dos treinos.

Daniela Veiga / Atlético

A pandemia, entretanto, não influencia apenas no condicionamento físico das jogadoras. O controle emocional e as condições psicológicas para as atletas manterem o foco e a disciplina também são fatores importantes. E, como a rotina dos treinos em casa pode ser muito estressante, a comissão decidiu que as sextas-feiras teriam trabalhos mais lúdicos e aulas mais abertas, como capoeira, boxe, zumba, entre outras atividades. O time também teve outras atividades remotas e, dentre elas, palestras com o Dr. Rodrigo Lasmar, sobre a saúde da atleta e a influência da qualidade do sono no desempenho, e com o Renato Miranda, psicólogo da UFJF, sobre controle emocional e tomada de decisão. Para Emily, essas decisões da comissão técnica atleticana ajudaram a quebrar a monotonia da quarentena:

“Tivemos bastante atividades extra “campo” que nos ajudaram bastante, incluindo a palestras de profissionais de diversas áreas, desde psicólogos do esporte até aulas de capoeira, dança e boxe. Foi uma iniciativa da comissão com o intuito de descontrair um pouco ao final de cada semana, para sair da monotonia dos treinos. No início, para mim, foi muito incomum ter que treinar por vídeo, foi algo novo e diferente do que já estava em mente, mas, com o suporte que nos foi oferecido, ficou mais didático e menos desgastante, creio que para o grupo também.”

A volante conta que a saída do coach Cassiano Neto durante a paralisação veio de surpresa, mas que os ensinamentos que ele passou durante o tempo de trabalho facilitaram esse processo de adaptação. O suporte dado pelo clube é fundamental para esse momento que também é de bastante reflexão, como destacou a lateral Ilana:

“Acredito que não só pra mim, mas para todo mundo a pandemia foi um momento de bastante reflexão e tenho certeza de que a maioria das pessoas aprenderam algo, assim como eu.”

Em julho, a CBF definiu possíveis datas para a volta do Campeonato Brasileiro Feminino e, ao final de agosto, as atleticanas se prepararam para voltar aos treinos presenciais, realizando uma série de exames, incluindo a testagem para Covid-19. Em uma reunião online, elas foram avisadas sobre o retorno com duas semanas de antecedência, para que pudessem se preparar e obedecer aos protocolos necessários.

Atlético/Divulgação

Os procedimentos adotados para a equipe feminina são os mesmos para todos os atletas do clube. Algumas atletas estão alojadas em um hotel e saem apenas para treinar, como nos contou Ilana, que se sente segura com os protocolos que estão sendo executados por todos, desde a chegada até a saída da Vila Olímpica. Para Emily, o sentimento é o mesmo:

“Usamos máscara praticamente o tempo todo, exceto no treinamento em campo. Cada atleta tem seu plástico para colocar sua máscara e isso facilita para transitar entre vestiário, quadra e campo com ela sempre por perto. Realizamos toda semana os testes no mesmo local de treino, Vila Olímpica, e sem contar as barreiras que passamos desde a entrada, com medição de temperatura, até o vestiário com álcool em gel. Sendo assim, me sinto segura com os critérios adotados.”

Os testes de Covid-19 são realizados semanalmente, geralmente às terças-feiras. Para as atleticanas que estão no hotel, o clube providenciou uma van que fica de uso exclusivo para o transporte até a Vila Olímpica. As atletas que residem em BH se deslocam até o treinamento por conta própria, algumas pegam transporte público e outras vão de carro.

Em relação a readaptação das atletas aos treinos presenciais, Emily conta que, apesar da diferença entre a preparação em casa e os treinos no campo e academia, as jogadoras voltaram muito bem preparadas fisicamente. Ilana também defende que a equipe voltou muito bem:

“Como não paramos em momento algum durante a pandemia, a nossa readaptação até que está sendo bem rápida. A nossa parte física foi praticamente mantida e agora estamos só lapidando e melhorando o que precisa ser melhorado e que não deu para trabalhar muito durante a pandemia.”

Atlético/Divulgação

Também perguntamos para Ilana como está o sentimento quanto a retomada dos jogos:

“Sem sombra de dúvidas, estamos bem ansiosas para a volta do campeonato, porém sabemos que vamos enfrentar adversários bem capacitados. Esperamos que todos os treinos durante essa pandemia possam fazer a diferença na volta do campeonato.”

Para Emily, as expectativas para o retorno da competição são as melhores possíveis:

“Ainda temos um período para acertamos alguns detalhes, mas estamos conscientes do nosso trabalho e focadas para conseguir os 3 pontos fora de casa.”

O time feminino entrará em campo novamente dia 25 de outubro, diante do Vasco, mas o elenco sofreu algumas perdas para o retorno do Campeonato Brasileiro A2. Durante a paralisação, deixaram o Galo Feminino a goleira Renata, as meias Duda, Lorraine, Jennifer Sthefany e Ligyamara Araújo, a lateral Rayssa Rodrigues e a atacante Ravilla Tamara. Além das atletas, a auxiliar técnica Thays Guimarães e o preparador físico Guilherme Acácio não seguiram no clube.

Um comentário sobre “O futebol feminino atleticano em tempos de pandemia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s