Tropeços e vitórias: a temporada das Vingadoras

*Escrito por Bárbara Mendes e Renata Lemos

Falar de 2020 sem ressaltar o desejo do fim, parece um tanto quanto desconexo. Esse foi um ano extremamente complicado, que por meio de uma situação atípica, trouxe à tona problemas diversos, de diversas instâncias, que não puderam mais ser adiados. Entretanto, seguimos vivendo esse período inimaginável para a nossa geração e seus efeitos, que não têm sinais claros de resolução e que certamente impactarão boa parte de 2021.

Foto: Atlético / Divulgação

Toda essa realidade parece ter tido um suspiro no último domingo, pelo menos pra nós, atleticanas! E pensando no sucesso da campanha das Vingadoras, apesar de tudo, refletido na vitória do Campeonato Mineiro, resolvemos fazer a única retrospectiva possível num ano tão caótico: a do time feminino do Galo!

A temporada começou com muitas promessas. Um time completamente modificado, com pouquíssimas permanências, se comparado ao time de 2019, principalmente se observarmos a equipe vinda do Prointer. Em meio a tantas mudanças, o objetivo anunciado pelo Galo para o ano que se iniciava era a garantia do acesso ao Brasileiro A2. 

Como parte do planejamento e das estratégias traçadas para alcançar esse objetivo, foi acordada a entrada do técnico Hoffmann Túlio. A ideia era alçar voos não alcançados em 2019, e para isso se fazia necessário construir um elenco que mesclasse experiência e juventude.

Caímos no “grupo da morte” do Brasileirão, mas a expectativa de acesso ainda era grande. A estreia no Independência mostrou um pouco do novo patamar que o clube queria dar à modalidade. Colocar essa equipe para disputar uma competição nacional referenciando como sua casa o Independência significou dizer o quanto elas são gigantes, assim como o palco que ocupam. Além disso, toda essa nova alocação do time feminino, bem como estratégias de marketing, como a criação do apelido “Vingadoras”, também visavam uma aproximação entre time e torcida. Essa nova identidade própria que começava a se constituir nesses passos foi fundamental para ter engajamento e identificação com a modalidade. 

Foto: Dani Veiga / Atlético

Tudo parecia fluir muito bem e, apesar de algumas mudanças parecerem um tanto quanto incômodas num primeiro momento, todo o planejamento parecia surtir algum efeito. E eis que veio a pandemia! 

Em meio a toda situação de crise sanitária, as medidas de segurança, os protocolos da Organização Mundial de Saúde e as questões políticas e econômicas que se tornaram parte dessa lógica pandêmica, todo o projeto teve que ser modificado. A estreia no Brasileiro foi no Horto, mas com portões fechados. O jogo mostrou um trabalho intenso, um time que já tinha a cara do Hoffmann: ofensivo. Por detalhe as Vingadoras não conseguiram a vitória. Mas a questão sanitária se intesificou e o futebol paralisou em todo o país.

Essa nova dinâmica trouxe muita dificuldade para o futebol de maneira geral. Nossas atletas faziam treinamentos físicos em casa e, sem os equipamentos adequados, precisaram criar alternativas dentro da realidade e possibilidade de cada uma. A equipe técnica se desdobrou  para monitorar e auxiliar as jogadoras, até aulas de zumba foram feitas de maneira remota. Mas o entrosamento e as questões táticas ficaram prejudicadas nesse momento.

Para além disso, toda a questão sanitária teve implicações diretas na economia. E por mais que a gente seja parte das pessoas que pensam que essa questão é secundária, tendo em vista as vidas perdidas com a pandemia, essa questão atravessou o processo de construir o futebol feminino. Durante a paralisação, houve uma série de questões relacionadas aos pagamentos de salários que devem ser mencionados, principalmente no caso do futebol feminino, tendo em vista que esse dinheiro é parte importante do orçamento das nossas atletas e parte fundamental como reconhecimento do trabalho prestado e da vinculação celetista que passaram a estabelecer com o clube. 

Ainda por motivos financeiros, houve, por parte de todos os clubes brasileiros, inclusive do Atlético a necessidade de “enxugar a folha de pagamento”. E, assim, tendo em vista essa interrupção da modalidade, por tempo indeterminado, até então, outras atletas, remanescentes de 2019 foram dispensadas. E, para elas, principalmente, esse caos foi um baque e impactou diretamente a crença na possibilidade de continuidade e crescimento. Atletas que acreditávamos ter um espaço de crescimento dentro da equipe, como Duda, que participou do primeiro jogo e havia sido convocada para a seleção no ano anterior, foi dispensada.

Foto: Atlético / Divulgação

A base também sofreu os golpes da pandemia e as consequências econômicas. Sem calendário para a categoria, o Galo resolveu interromper as atividades da base. Algumas atletas, porém, foram aproveitadas na categoria principal.

Em contrapartida, pensando que mesmo com a situação incomum e adversa o projeto seguia se construindo, foram realizadas novas contratações. E, assim, chegaram atletas que se tornaram, inclusive, referência para a equipe, como Flávia Gil. 

Foi estabelecido um planejamento para o retorno das competições, mediante o seguimento de uma série de etapas e medidas que amenizasse o risco para quem constrói a modalidade. E nesse retorno, toda a vinculação com o Independência ruiu, tendo em vista que parte desses protocolos dizia da não possibilidade de participação das torcidas nos jogos. 

O Galo, com a volta das competições, reestreou com derrota.Segundo Hoffmann Túlio a existência de duas estreias numa mesma competição atrapalhou a equipe, tendo em vista todo o nervosismo do início, que nesse caso, aconteceu em dois momentos.

Os jogos seguintes mostraram um crescimento do desempenho da equipe. Com mais tempo de treino, as qualidades individuais foram ressaltadas e o coletivo se mostrou cada vez mais entrosado. Tínhamos, enfim, uma equipe! Ganhamos do time a ser batido no grupo, goleamos outro, mas a classificação, infelizmente, não veio. Fica a dúvida: sem a janela atípica do campeonato, o resultado teria sido diferente para as Vingadoras? E a história segue não trabalhando com “se”!

Mesmo com a frustração de não conseguir a classificação, as Vingadoras jamais abaixaram a cabeça. Entenderam as dificuldades, trabalharam os erros e se fortaleceram cada vez mais. Cabe destacar, endossando o que Nina diz em sua entrevista do último domingo para o Óbvio Ululante, que não é porque a vitória não veio que ações não estavam sendo desenvolvidas e seguiram se desenvolvendo. Então, novos objetivos foram traçados e se relacionavam ao Campeonato Mineiro, dessa vez. 

Foto: Divulgação

O Mineiro começou com o Cruzeiro em surto de Covid e o América disputando a segunda fase do Brasileiro. A estreia, um clássico contra a equipe do Coelho, mostrou que as Vingadoras tinham condições de brigar pelo título. Segundo Hoffmann, o que eles tinham em mente era que disputariam a segunda vaga com o América, apostando na classificação garantida do Cruzeiro. A surpresa foi quando perceberam que, na verdade, a disputa da vaga para a final aconteceu numa configuração diferente.

O Galo foi o primeiro a se classificar! Terminou a fase de pontos corridos em primeiro lugar, com 14 pontos acumulados, sendo 4 vitórias e 2 empates. Empates esses contra o maior rival e adversário da finalíssima.

E, assim, fomos em busca da taça, numa final histórica. Nunca Atlético e Cruzeiro tinham decidido o título. Nunca essa decisão havia sido no Mineirão. Nunca uma partida do futebol feminino mineiro havia sido transmitida em TV aberta!

E vencemos! Vencemos ao estilo Galo… sofrido… com gol no último minuto e disputa de pênaltis! Vencemos vendo as adversárias comemorarem antes do apito final! Vencemos!! Cada Vingadora, cada membro da comissão, tem agora seu nome escrito na história do Galo!

Foto: Bruno Cantini / Atlético

Todo o planejamento e ações do ano de 2020 e o título do Mineiro foram fundamentais para mostrar que sim, é possível. Mostrar ao clube que existem outros caminhos, que é preciso olhar com atenção a modalidade. Que o trabalho precisa ser feito, precisa ser mantido.

O ano de 2021 está batendo na nossa porta. O Galo já está traçando estratégias com base no planejamento para a nova temporada. Sabemos que algumas atletas não continuarão no clube, o que é normal… propostas aparecem, principalmente no caso de um time campeão! 

O que desejamos para esse novo ano é que o Atlético entenda que é preciso continuidade e não repita o desmanche de 2019/2020, principalmente da forma como ele foi feito. Esperamos manutenção, mesmo com algumas alterações. E, por fim, que tenhamos uma equipe ainda mais fortalecida para os desafios que ainda estão por vir!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s