Apito feminino: uma luta invisível

Quando falamos de mulheres no futebol logo pensamos em atletas de times femininos. De imediato imagens de grandes jogadoras vêm à cabeça. Mas as mulheres estão no futebol em diversas outras funções, seja no jornalismo, na coordenação, nas equipes médicas e técnicas, nas arquibancadas e na arbitragem.

A árbitra Edina Alves Batista e as assistentes Neuza Back e Tatiane Sacilotti. Foto: Kin Saito/CBF

Hoje falarei de um tema quase invisível, a não ser quando se faz presente: a arbitragem feminina. Nesse trabalho de projeção de imagem mental, quando tocamos no assunto arbitragem é quase sempre a figura de um homem que nos vem à cabeça. Nos ‘acostumamos’ a ver homens no comando do futebol, inclusive dentro de campo. Mas quando elas são as responsáveis por regrar uma partida, causam estranheza.

Sem muitos registros sobre a história da arbitragem feminina no Brasil, consideramos Lea Campos a pioneira na função. Ela fez o curso de arbitragem da FMF – sim, Minas, por incrível que isso possa parecer –  em 1967, quando o futebol era proibido por lei para as mulheres no Brasil, mas só foi reconhecida e diplomada para a função pela CBD em 1971, quando atuou num torneio amistoso de futebol de mulheres, no México. Foi nesse mesmo ano que ela foi reconhecida como a primeira árbitra de futebol do mundo, recebendo o prêmio “apito de ouro” da FIFA.

Léa Campos. Acervo Pessoal, retirado do blog Dibradoras

Na década de 1980 algumas outras árbitras começaram a ser formar e aparecer no cenário. A Associação de Árbitros do Rio de Janeiro ofereceu, em 1983, um curso de arbitragem exclusivo para mulheres. Foi nesse curso que se formou Cláudia Guedes, primeira mulher a apitar uma partida de competição FIFA, na Copa do Mundo Feminina em 1991, na China. Segundo ela, havia uma recusa por parte dos homens árbitros em apitar futebol feminino.

Na mesma época Sílvia Regina se formou árbitra, mas foi só em 2003 que entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a apitar uma partida de Copa Sul-Americana masculina. Além disso, no mesmo ano, compôs o primeiro trio de árbitras a atuar em partidas do Campeonato Brasileiro masculino Série A, ao lado de Aline Lambert e Ana Paula Oliveira.

Ana Paula Oliveira, Silvia Regina e Aline Lambert durante Guarani e São Paulo, em 2003, pelo Brasileirão. Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Hoje, em 2020, as mulheres ocupam, em grande maioria, a posição de auxiliares na equipe de arbitragem (quando ocupam). Talvez por isso Edina Alves tem sido destaque. Ela é a única mulher a apitar jogos da primeira divisão do Brasileirão masculino, desde o ano passado. Fato que não acontecia há 14 anos.

Por mais que as mulheres avancem em suas conquistas sociais, o futebol ainda é esmagadoramente masculino, em todos os sentidos – lembram desse texto sobre feminismos e futebol de mulheres? O blog Dibradoras reportou que na Copa do Mundo masculina de 2018 nenhuma mulher integrou a equipe de arbitragem, nem mesmo nas cabines do VAR. Segundo apurou o Renata Mendonça, no quadro de arbitragem da FIFA daquele ano haviam 1076 homens e 426 mulheres, o que dá menos de 30%. Dessas árbitras, nem todas têm chancela para estarem em competições masculinas, visto que o teste físico para isso é mais rigoroso.

“existem muitas árbitras de futebol que talvez pudessem estar apitando, mas que não tem oportunidade nas suas federações.” Claudia Guedes

E aqui em Minas Gerais? Bom, olhando o quadro de arbitragem da FMF encontramos um total de 276 árbitros, mas dentre eles, apenas 26 são mulheres. Essas mulheres são em maioria escaladas como assistentes em jogos masculinos. Quando a competição é feminina, elas têm oportunidade de comandarem a equipe de arbitragem.

“Infelizmente, mesmo depois de aptas (a atuarem no futebol masculino), as árbitras não têm as mesmas oportunidades que os homens. Aí no caso não temos o que fazer. Em uma Copa do Mundo masculina principal acho muito difícil que isso aconteça (ter mulheres na arbitragem)”, pontuou Regildênia de Holanda Moura, árbitra Fifa desde 2012

Se no futebol masculino a presença da mulher árbitra é quase nula, no futebol feminino a presença de homens apitando e auxiliando é comum. O problema da mulher árbitra é o mesmo que toda mulher ainda enfrenta: falta de oportunidade e preconceito. Quantas mulheres optam por seguir carreira na arbitragem? Quais as oportunidades que elas têm? Qual o incentivo a essas mulheres?

“Olha o currículo do cara que apitou hoje [se referindo a um jogo da Copa de 2018] pela primeira vez a Copa do Mundo, ele tem 16 anos de arbitragem na Fifa. A Regildênia está há 10 anos na Fifa, só que ela não tem jogo, porque não escalam. Ela só vai concorrer se for testada no jogo. Então tem que trabalhar a base da arbitragem feminina”, disse Sálvio Spínola….

Pedro Vilela/Getty Images

O problema vai além da falta de oportunidade! Infelizmente ainda é muito comum o desrespeito a mulher nessa função. Quem não se lembra de Alexandre Mattos, à época na direção de futebol do Cruzeiro, declarando que a bandeirinha Fernanda Colombo deveria posar nua e não bandeirar? A mulher bonita serve para ser vista, admirada, desejada. Apenas isso. É sobre essa falta de respeito que Claudia Guedes declara

O problema são os dirigentes, esses é que, pelo menos na minha época, se metiam muito e tinham muita influência nas federações. Eles vetavam árbitro, diziam que não queriam mulher apitando jogo deles, diziam que não queriam homossexual apitando jogo deles…

A mulher ainda é invisível na arbitragem de futebol. A luta pela conquista desses espaços deve ser valorizada, elevada e apoiada. Nós mulheres podemos e vamos ocupar todos os espaços do futebol, inclusive no comando do apito!

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